26.1.26

CORAÇÃO DE FOGO | PRÓLOGO

 


Havia algo na maneira como a lua tomou o céu aquela noite:  um presságio silencioso anunciando o começo do fim. A guerra já estava ali, aportada em todo o reino.

Leslie Rosseto era apenas uma criança naquele momento, nascida no último suspiro do outono, pequena demais para compreender as consequências de simplesmente existir em um cenário tão profundo, difuso e cruel.
Suas mãos diminutas mal conseguiam se fechar ao redor do dedo dos pais, pois lhe faltava força. Tão pequenina e frágil que sequer carregaria memórias reais daquela madrugada, misturando o imaginário com a narração daqueles que haviam presenciado a cena.

Era inverno, e a neve caía com tamanha insistência que parecia se infiltrar nos ossos, fazendo arder juntas e ranger os dentes. Nas casas, o fogo jamais se apagava; lareiras eram mantidas acesas dia e noite, e os alimentos haviam sido estocados por meses — um ritual antigo de sobrevivência diante das geadas implacáveis do norte de Althaska.

O frio roubava do dia a sua própria identidade. Faltava sol, e o mundo permanecia mergulhado numa penumbra constante; quando muito, três ou quatro horas se permitiam realmente iluminadas antes que a noite retomasse seu domínio. Por isso, ninguém saia de casa nos dias mais intensos de inverno e, por isso, toda a vila estremeceu quando a luz surgiu.

Era óbvio para todos que aquilo não se tratava de um capricho da natureza comum. Não era a luz pálida, quase em penumbra, do sol que varria os breves dias de inverno; tampouco era a luz do verão, pois essa trazia consigo calor suficiente para confortar. Não. Aquela que surgira no céu queimava. Ao redor, a terra parecia ondular, como se o ar se dobrasse em camadas visíveis de calor.
Um a um, todos saíram porta afora.

Detalhes do que ocorreu a seguir perderam-se quase por completo. Os poucos sobreviventes afirmam que mal conseguiam ver, embora ainda pudessem sentir,  e logo se tornou evidente que a luz que invadira as janelas não era natural, mas uma anomalia. Se houvesse havido tempo hábil o suficiente para que a notícia chegasse, vencendo a lentidão das estradas no inverno, aquela vila já teria ouvido falar do que a Capital chamava de magia.

Ela surgira com o início da estação, acompanhada de um estrondo capaz de fazer a própria terra estremecer e, desde então, pequenos vilarejos e cidades vinham sendo atacados por criaturas bestiais, antes confinadas apenas às fábulas e mitologias antigas. Mas ali, isolados pela neve, nada sabiam das notícias, e, portanto, tampouco conheciam os protocolos: permanecer dentro de casa, apagar o fogo, não fazer barulho. Presos à ignorância imposta pela ausência de informação, fizeram, como era de se esperar, exatamente o contrário.

Ao abrirem as portas e encararem a neve derretendo sob a grande bola de fogo que pairava no céu, gritaram a plenos pulmões, anunciando, sem saber, que ali havia vida. As criaturas emergiam do que parecia ser o próprio sol, e bastou isso para lançar toda a população em fuga, desesperada, correndo, em vão,  para qualquer lugar que fosse longe dali.

As criaturas não caminhavam; deslizavam pelo ar como pensamentos doentios que se recusam a ser esquecidos. Seus corpos eram longos e retorcidos, formados por uma carne escura e úmida. As asas, largas demais para parecerem naturais, lembravam membranas rasgadas: não penas, mas véus de pele translúcida, marcados por veias expostas e buracos irregulares, como se o próprio ar as tivesse corroído ao longo do tempo.

Havia nelas algo vagamente humano e era isso que as tornava insuportáveis de encarar. Um tronco curvado, membros que apenas sugeriam braços e uma cabeça baixa demais. O rosto, quando visível, parecia esculpido em ossos tensos e dentes à mostra, preso num riso imóvel que jamais prometia misericórdia.

Não eram feitas apenas de matéria: vapor, fumaça e sombras pareciam se desprender de seus corpos, como se não estivessem inteiramente ancoradas naquele mundo. Por onde passavam, o ar ondulava, e a sensação era de uma queimadura sem fogo, como um rastro antinatural que ardia por dentro.

Essas criaturas não caçavam por fome. Caçavam porque existiam. Porque haviam sido chamadas exatamente para isso. E, uma vez vistas, tornava-se impossível esquecer a certeza cruel que deixavam para trás: morte. Para aquelas pessoas desavisadas, ficava claro que as fábulas é que haviam tentado, em vão, avisar sobre elas.

A vila não caiu de uma só vez: foi sendo tomada em fragmentos. O pai de Leslie, um homem robusto e louro, ao som dos primeiros gritos, proibiu que a esposa deixasse a pequena casa da família e garantiu que voltaria logo. Pegou, junto à porta, o machado que usava para cortar lenha. Não voltou. Deixou para trás apenas a mulher e a criança, aos prantos, amedrontadas.

Fora dos lares, as criaturas desceram como uma sombra em movimento, girando no ar acima dos telhados enquanto as pessoas corriam sem direção. Não perseguiam os mais rápidos nem os mais fortes; escolhiam aqueles que estavam mais perto. Era uma batalha perdida para aquelas pessoas: quando não se conhece o inimigo, o medo se encarrega de todo o resto.

As portas que se fechavam não ofereciam abrigo. As criaturas sentiam o calor das lareiras acesas, o pulso vivo sob as paredes de madeira. Deslizavam até elas, pousando sem peso, e bastava sua presença para que o ar se tornasse irrespirável. O fogo das lareiras vacilava, apagava-se, e, lá dentro, o silêncio nunca durava muito.

Do lado de fora, a neve derretia em círculos irregulares sob seus corpos. O chão estalava, as cercas cediam, os caminhos conhecidos se desfaziam em confusão. Não havia para onde fugir e os gritos se perdiam no vento, interrompidos.

As criaturas caçavam com método. Cercavam, observavam, desciam. Às vezes pairavam acima das vítimas por um instante longo demais, como se saboreassem o reconhecimento tardio de que não havia salvação. Em outras, passavam rápido, deixando apenas o vazio onde antes havia vida.

Quando a aurora deveria ter chegado, encontrou apenas ruínas fumegantes e um frio ainda mais profundo. Nenhuma casa permanecera intacta. Nenhuma fogueira resistira. O que restava da vila era um conjunto de marcas no solo: pegadas interrompidas, portas abertas, objetos largados onde caíram.

E então, tão silenciosamente quanto haviam chegado, as criaturas partiram, retornando à luz que queimava no céu e fazendo esta se apagar. Deixaram para trás não apenas a morte, mas algo pior: a certeza de que aquele lugar jamais voltaria a ser apenas uma vila: tornara-se um aviso.

Dias mais tarde, chegaram figuras armaduradas, de aparência imponente, diferentes demais das criaturas que haviam dizimado a comunidade, mas, ainda assim, estranhas àquele lugar. Percorreram a área em uma varredura silenciosa, medindo ruínas, marcas no solo e ausências.

Foi então que ouviram o choro de Leslie, ecoando em plenos pulmões de um sótão velho e empoeirado da pequena casa onde fora deixada naquela noite. Não havia sinal de nenhuma outra pessoa na casa. Poucos haviam sobrevivido ao ataque e, entre esses, a maioria estava ferida demais para ter outro fim que não o sacrifício.

Leslie, magra e faminta, mal conseguia manter a consciência por muito tempo. Acordava assustada, chamava pelos pais com a voz já rouca, e logo tornava a cair em um sono conturbado e febril. Foi levada embora, resgatada por estranhos, e designada a um orfanato superlotado na capital do reino, pois, após aquele dia, havia mais órfãos do que famílias.

O termo magia ganhou corpo e passou a circular com peso real. Diante dos olhos de todos, crianças que haviam sobrevivido aos ataques começaram, não raramente, a demonstrar aquilo que chamavam de aptidão mágica. O que antes era mito tornou-se recorrente e o que era temido passou a ser desejado pela Coroa.

Com o avançar da guerra, muito se aprendeu e novos termos foram implementados:  portais — nome dado à grande bola de fogo que assolara a pequena vila — passaram a ser estudados; selos — locais onde criaturas antigas permaneciam aprisionadas — foram identificados como o verdadeiro ponto de ruptura, despertados por um ritual que apenas agravara um conflito que já se estendia por mais de uma década; e magia, enfim, deixou de ser exceção e passou a integrar a própria lógica da guerra, pois não havia como vencer sem ela.

Assim, no lugar de um treinamento restrito a armas e combate corpo a corpo, o exército real passou a investir em instrução mágica. Para as crianças órfãs que haviam adquirido aptidão com o rompimento dos selos que antes a continham, o alistamento tornou-se obrigatório. Para aquelas que não haviam tido a mesma sorte, o destino não era diferente: eram enviadas à infantaria assim que tivessem idade o suficiente.

Quanto às crianças de pais vivos, estas também não escapavam. Tornara-se comum que fossem trocadas por pequenas quantias de dinheiro e rações mensais, em acordos silenciosos que as destinavam ao serviço militar. Pois, junto com a guerra, viera também a escassez, uma vez que estradas e portos comerciais entre reinos foram interrompidos ou destruídos, sufocando o comércio e isolando regiões inteiras. O que antes circulava com dificuldade passou a simplesmente não chegar, e a fome se instalou como mais uma arma da guerra. Diante disso, muitas famílias cederam, não por escolha, mas por exaustão, e entregar um filho tornara-se, para muitos, a única forma de garantir a sobrevivência dos que ficavam para trás.

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