Havia algo na maneira como a lua
tomou o céu aquela noite: um presságio
silencioso anunciando o começo do fim. A guerra já estava ali, aportada em todo
o reino.
Leslie Rosseto era apenas uma criança
naquele momento, nascida no último suspiro do outono, pequena demais para
compreender as consequências de simplesmente existir em um cenário tão
profundo, difuso e cruel.
Suas mãos diminutas mal conseguiam se fechar ao redor do dedo dos pais, pois
lhe faltava força. Tão pequenina e frágil que sequer carregaria memórias reais daquela
madrugada, misturando o imaginário com a narração daqueles que haviam
presenciado a cena.
Era inverno, e a neve caía com tamanha
insistência que parecia se infiltrar nos ossos, fazendo arder juntas e ranger
os dentes. Nas casas, o fogo jamais se apagava; lareiras eram mantidas acesas
dia e noite, e os alimentos haviam sido estocados por meses — um ritual antigo
de sobrevivência diante das geadas implacáveis do norte de Althaska.
O frio roubava do dia a sua própria
identidade. Faltava sol, e o mundo permanecia mergulhado numa penumbra
constante; quando muito, três ou quatro horas se permitiam realmente iluminadas
antes que a noite retomasse seu domínio. Por isso, ninguém saia de casa nos
dias mais intensos de inverno e, por isso, toda a vila estremeceu quando a luz
surgiu.
Era óbvio para todos que aquilo não se
tratava de um capricho da natureza comum. Não era a luz pálida, quase em
penumbra, do sol que varria os breves dias de inverno; tampouco era a luz do
verão, pois essa trazia consigo calor suficiente para confortar. Não. Aquela
que surgira no céu queimava. Ao redor, a terra parecia ondular, como se o ar se
dobrasse em camadas visíveis de calor.
Um a um, todos saíram porta afora.
Detalhes do que ocorreu a seguir
perderam-se quase por completo. Os poucos sobreviventes afirmam que mal
conseguiam ver, embora ainda pudessem sentir, e logo se tornou evidente que a luz que
invadira as janelas não era natural, mas uma anomalia. Se houvesse havido tempo
hábil o suficiente para que a notícia chegasse, vencendo a lentidão das
estradas no inverno, aquela vila já teria ouvido falar do que a Capital chamava
de magia.
Ela surgira com o início da estação,
acompanhada de um estrondo capaz de fazer a própria terra estremecer e, desde
então, pequenos vilarejos e cidades vinham sendo atacados por criaturas
bestiais, antes confinadas apenas às fábulas e mitologias antigas. Mas ali,
isolados pela neve, nada sabiam das notícias, e, portanto, tampouco conheciam
os protocolos: permanecer dentro de casa, apagar o fogo, não fazer barulho.
Presos à ignorância imposta pela ausência de informação, fizeram, como era de
se esperar, exatamente o contrário.
Ao abrirem as portas e encararem a neve
derretendo sob a grande bola de fogo que pairava no céu, gritaram a plenos
pulmões, anunciando, sem saber, que ali havia vida. As criaturas emergiam do
que parecia ser o próprio sol, e bastou isso para lançar toda a população em
fuga, desesperada, correndo, em vão, para qualquer lugar que fosse longe dali.
As criaturas não caminhavam; deslizavam
pelo ar como pensamentos doentios que se recusam a ser esquecidos. Seus corpos
eram longos e retorcidos, formados por uma carne escura e úmida. As asas,
largas demais para parecerem naturais, lembravam membranas rasgadas: não penas,
mas véus de pele translúcida, marcados por veias expostas e buracos
irregulares, como se o próprio ar as tivesse corroído ao longo do tempo.
Havia nelas algo vagamente humano e era
isso que as tornava insuportáveis de encarar. Um tronco curvado, membros que
apenas sugeriam braços e uma cabeça baixa demais. O rosto, quando visível,
parecia esculpido em ossos tensos e dentes à mostra, preso num riso imóvel que
jamais prometia misericórdia.
Não eram feitas apenas de matéria: vapor,
fumaça e sombras pareciam se desprender de seus corpos, como se não estivessem
inteiramente ancoradas naquele mundo. Por onde passavam, o ar ondulava, e a
sensação era de uma queimadura sem fogo, como um rastro antinatural que ardia
por dentro.
Essas criaturas não caçavam por fome.
Caçavam porque existiam. Porque haviam sido chamadas exatamente para isso. E,
uma vez vistas, tornava-se impossível esquecer a certeza cruel que deixavam
para trás: morte. Para aquelas pessoas desavisadas, ficava claro que as
fábulas é que haviam tentado, em vão, avisar sobre elas.
A vila não caiu de uma só vez: foi sendo
tomada em fragmentos. O pai de Leslie, um homem robusto e louro, ao som dos
primeiros gritos, proibiu que a esposa deixasse a pequena casa da família e
garantiu que voltaria logo. Pegou, junto à porta, o machado que usava para
cortar lenha. Não voltou. Deixou para trás apenas a mulher e a criança, aos
prantos, amedrontadas.
Fora dos lares, as criaturas desceram
como uma sombra em movimento, girando no ar acima dos telhados enquanto as
pessoas corriam sem direção. Não perseguiam os mais rápidos nem os mais fortes;
escolhiam aqueles que estavam mais perto. Era uma batalha perdida para aquelas
pessoas: quando não se conhece o inimigo, o medo se encarrega de todo o resto.
As portas que se fechavam não ofereciam
abrigo. As criaturas sentiam o calor das lareiras acesas, o pulso vivo sob as
paredes de madeira. Deslizavam até elas, pousando sem peso, e bastava sua
presença para que o ar se tornasse irrespirável. O fogo das lareiras vacilava,
apagava-se, e, lá dentro, o silêncio nunca durava muito.
Do lado de fora, a neve derretia em
círculos irregulares sob seus corpos. O chão estalava, as cercas cediam, os
caminhos conhecidos se desfaziam em confusão. Não havia para onde fugir e os
gritos se perdiam no vento, interrompidos.
As criaturas caçavam com método.
Cercavam, observavam, desciam. Às vezes pairavam acima das vítimas por um
instante longo demais, como se saboreassem o reconhecimento tardio de que não
havia salvação. Em outras, passavam rápido, deixando apenas o vazio onde antes
havia vida.
Quando a aurora deveria ter chegado,
encontrou apenas ruínas fumegantes e um frio ainda mais profundo. Nenhuma casa
permanecera intacta. Nenhuma fogueira resistira. O que restava da vila era um
conjunto de marcas no solo: pegadas interrompidas, portas abertas, objetos
largados onde caíram.
E então, tão silenciosamente quanto
haviam chegado, as criaturas partiram, retornando à luz que queimava no céu e
fazendo esta se apagar. Deixaram para trás não apenas a morte, mas algo pior: a
certeza de que aquele lugar jamais voltaria a ser apenas uma vila: tornara-se
um aviso.
Dias mais tarde, chegaram figuras
armaduradas, de aparência imponente, diferentes demais das criaturas que haviam
dizimado a comunidade, mas, ainda assim, estranhas àquele lugar. Percorreram a
área em uma varredura silenciosa, medindo ruínas, marcas no solo e ausências.
Foi então que ouviram o choro de Leslie,
ecoando em plenos pulmões de um sótão velho e empoeirado da pequena casa onde
fora deixada naquela noite. Não havia sinal de nenhuma outra pessoa na casa.
Poucos haviam sobrevivido ao ataque e, entre esses, a maioria estava ferida
demais para ter outro fim que não o sacrifício.
Leslie, magra e faminta, mal conseguia
manter a consciência por muito tempo. Acordava assustada, chamava pelos pais
com a voz já rouca, e logo tornava a cair em um sono conturbado e febril. Foi
levada embora, resgatada por estranhos, e designada a um orfanato superlotado
na capital do reino, pois, após aquele dia, havia mais órfãos do que famílias.
O termo magia ganhou corpo e
passou a circular com peso real. Diante dos olhos de todos, crianças que haviam
sobrevivido aos ataques começaram, não raramente, a demonstrar aquilo que
chamavam de aptidão mágica. O que antes era mito tornou-se recorrente e o
que era temido passou a ser desejado pela Coroa.
Com o avançar da guerra, muito se
aprendeu e novos termos foram implementados: portais — nome dado à grande bola de fogo que
assolara a pequena vila — passaram a ser estudados; selos — locais onde
criaturas antigas permaneciam aprisionadas — foram identificados como o
verdadeiro ponto de ruptura, despertados por um ritual que apenas agravara um
conflito que já se estendia por mais de uma década; e magia, enfim, deixou de
ser exceção e passou a integrar a própria lógica da guerra, pois não havia como
vencer sem ela.
Assim, no lugar de um treinamento
restrito a armas e combate corpo a corpo, o exército real passou a investir em
instrução mágica. Para as crianças órfãs que haviam adquirido aptidão com o
rompimento dos selos que antes a continham, o alistamento tornou-se
obrigatório. Para aquelas que não haviam tido a mesma sorte, o destino
não era diferente: eram enviadas à infantaria assim que tivessem idade o
suficiente.
Quanto às crianças de pais vivos, estas
também não escapavam. Tornara-se comum que fossem trocadas por pequenas
quantias de dinheiro e rações mensais, em acordos silenciosos que as destinavam
ao serviço militar. Pois, junto com a guerra, viera também a escassez, uma vez
que estradas e portos comerciais entre reinos foram interrompidos ou
destruídos, sufocando o comércio e isolando regiões inteiras. O que antes
circulava com dificuldade passou a simplesmente não chegar, e a fome se
instalou como mais uma arma da guerra. Diante disso, muitas famílias cederam,
não por escolha, mas por exaustão, e entregar um filho tornara-se, para muitos,
a única forma de garantir a sobrevivência dos que ficavam para trás.
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