26.1.26

CORAÇÃO DE FOGO | PRÓLOGO

 


Havia algo na maneira como a lua tomou o céu aquela noite:  um presságio silencioso anunciando o começo do fim. A guerra já estava ali, aportada em todo o reino.

Leslie Rosseto era apenas uma criança naquele momento, nascida no último suspiro do outono, pequena demais para compreender as consequências de simplesmente existir em um cenário tão profundo, difuso e cruel.
Suas mãos diminutas mal conseguiam se fechar ao redor do dedo dos pais, pois lhe faltava força. Tão pequenina e frágil que sequer carregaria memórias reais daquela madrugada, misturando o imaginário com a narração daqueles que haviam presenciado a cena.

Era inverno, e a neve caía com tamanha insistência que parecia se infiltrar nos ossos, fazendo arder juntas e ranger os dentes. Nas casas, o fogo jamais se apagava; lareiras eram mantidas acesas dia e noite, e os alimentos haviam sido estocados por meses — um ritual antigo de sobrevivência diante das geadas implacáveis do norte de Althaska.

O frio roubava do dia a sua própria identidade. Faltava sol, e o mundo permanecia mergulhado numa penumbra constante; quando muito, três ou quatro horas se permitiam realmente iluminadas antes que a noite retomasse seu domínio. Por isso, ninguém saia de casa nos dias mais intensos de inverno e, por isso, toda a vila estremeceu quando a luz surgiu.

Era óbvio para todos que aquilo não se tratava de um capricho da natureza comum. Não era a luz pálida, quase em penumbra, do sol que varria os breves dias de inverno; tampouco era a luz do verão, pois essa trazia consigo calor suficiente para confortar. Não. Aquela que surgira no céu queimava. Ao redor, a terra parecia ondular, como se o ar se dobrasse em camadas visíveis de calor.
Um a um, todos saíram porta afora.

Detalhes do que ocorreu a seguir perderam-se quase por completo. Os poucos sobreviventes afirmam que mal conseguiam ver, embora ainda pudessem sentir,  e logo se tornou evidente que a luz que invadira as janelas não era natural, mas uma anomalia. Se houvesse havido tempo hábil o suficiente para que a notícia chegasse, vencendo a lentidão das estradas no inverno, aquela vila já teria ouvido falar do que a Capital chamava de magia.

Ela surgira com o início da estação, acompanhada de um estrondo capaz de fazer a própria terra estremecer e, desde então, pequenos vilarejos e cidades vinham sendo atacados por criaturas bestiais, antes confinadas apenas às fábulas e mitologias antigas. Mas ali, isolados pela neve, nada sabiam das notícias, e, portanto, tampouco conheciam os protocolos: permanecer dentro de casa, apagar o fogo, não fazer barulho. Presos à ignorância imposta pela ausência de informação, fizeram, como era de se esperar, exatamente o contrário.

Ao abrirem as portas e encararem a neve derretendo sob a grande bola de fogo que pairava no céu, gritaram a plenos pulmões, anunciando, sem saber, que ali havia vida. As criaturas emergiam do que parecia ser o próprio sol, e bastou isso para lançar toda a população em fuga, desesperada, correndo, em vão,  para qualquer lugar que fosse longe dali.

As criaturas não caminhavam; deslizavam pelo ar como pensamentos doentios que se recusam a ser esquecidos. Seus corpos eram longos e retorcidos, formados por uma carne escura e úmida. As asas, largas demais para parecerem naturais, lembravam membranas rasgadas: não penas, mas véus de pele translúcida, marcados por veias expostas e buracos irregulares, como se o próprio ar as tivesse corroído ao longo do tempo.

Havia nelas algo vagamente humano e era isso que as tornava insuportáveis de encarar. Um tronco curvado, membros que apenas sugeriam braços e uma cabeça baixa demais. O rosto, quando visível, parecia esculpido em ossos tensos e dentes à mostra, preso num riso imóvel que jamais prometia misericórdia.

Não eram feitas apenas de matéria: vapor, fumaça e sombras pareciam se desprender de seus corpos, como se não estivessem inteiramente ancoradas naquele mundo. Por onde passavam, o ar ondulava, e a sensação era de uma queimadura sem fogo, como um rastro antinatural que ardia por dentro.

Essas criaturas não caçavam por fome. Caçavam porque existiam. Porque haviam sido chamadas exatamente para isso. E, uma vez vistas, tornava-se impossível esquecer a certeza cruel que deixavam para trás: morte. Para aquelas pessoas desavisadas, ficava claro que as fábulas é que haviam tentado, em vão, avisar sobre elas.

A vila não caiu de uma só vez: foi sendo tomada em fragmentos. O pai de Leslie, um homem robusto e louro, ao som dos primeiros gritos, proibiu que a esposa deixasse a pequena casa da família e garantiu que voltaria logo. Pegou, junto à porta, o machado que usava para cortar lenha. Não voltou. Deixou para trás apenas a mulher e a criança, aos prantos, amedrontadas.

Fora dos lares, as criaturas desceram como uma sombra em movimento, girando no ar acima dos telhados enquanto as pessoas corriam sem direção. Não perseguiam os mais rápidos nem os mais fortes; escolhiam aqueles que estavam mais perto. Era uma batalha perdida para aquelas pessoas: quando não se conhece o inimigo, o medo se encarrega de todo o resto.

As portas que se fechavam não ofereciam abrigo. As criaturas sentiam o calor das lareiras acesas, o pulso vivo sob as paredes de madeira. Deslizavam até elas, pousando sem peso, e bastava sua presença para que o ar se tornasse irrespirável. O fogo das lareiras vacilava, apagava-se, e, lá dentro, o silêncio nunca durava muito.

Do lado de fora, a neve derretia em círculos irregulares sob seus corpos. O chão estalava, as cercas cediam, os caminhos conhecidos se desfaziam em confusão. Não havia para onde fugir e os gritos se perdiam no vento, interrompidos.

As criaturas caçavam com método. Cercavam, observavam, desciam. Às vezes pairavam acima das vítimas por um instante longo demais, como se saboreassem o reconhecimento tardio de que não havia salvação. Em outras, passavam rápido, deixando apenas o vazio onde antes havia vida.

Quando a aurora deveria ter chegado, encontrou apenas ruínas fumegantes e um frio ainda mais profundo. Nenhuma casa permanecera intacta. Nenhuma fogueira resistira. O que restava da vila era um conjunto de marcas no solo: pegadas interrompidas, portas abertas, objetos largados onde caíram.

E então, tão silenciosamente quanto haviam chegado, as criaturas partiram, retornando à luz que queimava no céu e fazendo esta se apagar. Deixaram para trás não apenas a morte, mas algo pior: a certeza de que aquele lugar jamais voltaria a ser apenas uma vila: tornara-se um aviso.

Dias mais tarde, chegaram figuras armaduradas, de aparência imponente, diferentes demais das criaturas que haviam dizimado a comunidade, mas, ainda assim, estranhas àquele lugar. Percorreram a área em uma varredura silenciosa, medindo ruínas, marcas no solo e ausências.

Foi então que ouviram o choro de Leslie, ecoando em plenos pulmões de um sótão velho e empoeirado da pequena casa onde fora deixada naquela noite. Não havia sinal de nenhuma outra pessoa na casa. Poucos haviam sobrevivido ao ataque e, entre esses, a maioria estava ferida demais para ter outro fim que não o sacrifício.

Leslie, magra e faminta, mal conseguia manter a consciência por muito tempo. Acordava assustada, chamava pelos pais com a voz já rouca, e logo tornava a cair em um sono conturbado e febril. Foi levada embora, resgatada por estranhos, e designada a um orfanato superlotado na capital do reino, pois, após aquele dia, havia mais órfãos do que famílias.

O termo magia ganhou corpo e passou a circular com peso real. Diante dos olhos de todos, crianças que haviam sobrevivido aos ataques começaram, não raramente, a demonstrar aquilo que chamavam de aptidão mágica. O que antes era mito tornou-se recorrente e o que era temido passou a ser desejado pela Coroa.

Com o avançar da guerra, muito se aprendeu e novos termos foram implementados:  portais — nome dado à grande bola de fogo que assolara a pequena vila — passaram a ser estudados; selos — locais onde criaturas antigas permaneciam aprisionadas — foram identificados como o verdadeiro ponto de ruptura, despertados por um ritual que apenas agravara um conflito que já se estendia por mais de uma década; e magia, enfim, deixou de ser exceção e passou a integrar a própria lógica da guerra, pois não havia como vencer sem ela.

Assim, no lugar de um treinamento restrito a armas e combate corpo a corpo, o exército real passou a investir em instrução mágica. Para as crianças órfãs que haviam adquirido aptidão com o rompimento dos selos que antes a continham, o alistamento tornou-se obrigatório. Para aquelas que não haviam tido a mesma sorte, o destino não era diferente: eram enviadas à infantaria assim que tivessem idade o suficiente.

Quanto às crianças de pais vivos, estas também não escapavam. Tornara-se comum que fossem trocadas por pequenas quantias de dinheiro e rações mensais, em acordos silenciosos que as destinavam ao serviço militar. Pois, junto com a guerra, viera também a escassez, uma vez que estradas e portos comerciais entre reinos foram interrompidos ou destruídos, sufocando o comércio e isolando regiões inteiras. O que antes circulava com dificuldade passou a simplesmente não chegar, e a fome se instalou como mais uma arma da guerra. Diante disso, muitas famílias cederam, não por escolha, mas por exaustão, e entregar um filho tornara-se, para muitos, a única forma de garantir a sobrevivência dos que ficavam para trás.

24.1.26

1. Vaelis.


 

Há muito eu perdi as esperanças de enxergar na escuridão

O tempo, aqui, escorre como água sobre pedra: silencioso, persistente e desinteressado. O ar tem gosto de metal e as sombras são apenas borrões difusos, como fantasmas sem formas. Não há janelas e, depois de ter esperado tempo o suficiente para saber que meus olhos mortais não se adaptariam àquele tipo de penumbra, entendi que algumas pessoas simplesmente têm mais sorte do que outras.

Eu sou o quase.

Mãe faeri. Irmãs faeri. Pai humano.

Um erro mágico.

É verdade que herdei algumas características que me fazem passar despercebida em certas multidões: os olhos que mudam de cor quando as coisas ficam intensas, embora enxerguem exatamente como os de um humano comum; as orelhas pontudas, que não ouvem mais do que o silêncio; o queixo fino e até as cicatrizes de um brotamento de asas que sequer cheguei a ter. Eu sou o limbo entre o infortúnio de ser pela metade.

O que ainda não entendo é como eles sabiam. Como me encontraram sob tantos feitiços costurados. 

Apesar da minha humanidade nunca ter sido exatamente um segredo para mim, era óbvio para toda a minha família faeri, mesmo para aqueles que nunca tinham ousado perguntar. Nunca soube muito bem o porquê mamãe se apaixonou por um humano, especialmente em uma época como a que nasci, especialmente depois da vitória do Grande Rei, e, mais do que tudo, nunca entendi o porquê d´ela ter engravidado. É mais difícil, para ela, manter o segredo e pagar pelas magias, cada vez mais caras e raras, para que eu pareça ainda mais faeri do que sou, do que seria se tivesse acabado com tudo enquanto ainda era tempo.  

E, agora, ainda posso sentir na pele o cheiro da magia faeri usada somente naqueles em quem não querem encostar. Quando preferem que a própria parede empurre, que a água fira, que o silêncio grite. É tão diferente daquela que usam para esconder, imperceptível.

— Ela ainda está viva?

A voz vem de além da porta. Não se dirige a mim. Nenhuma voz se dirige a mim há dias.

— Sim. — responde outra, seca.

Risos abafados. E passos. Um deles hesita. E então, silêncio.

Alguém abre a porta, mas não de verdade: só o bastante para que a luz entre como lâmina. Instintivamente, eu me encolho, esperando a ardência da incandescência depois de dias de escuridão, mas a fresta não chega até meu rosto. Aquele ato, dolorosamente intencional, me queima por dentro. Inferno, como eu queria não estar aqui.

Mas eu o sinto antes de vê-lo, como quem sente a aproximação da tempestade mesmo com o céu ainda azul. Não me atrevo a levantar a cabeça, mas observo o movimento do corpo dele.

Ele não fala. Apenas permanece ali, imóvel, como se não soubesse se devia entrar ou queimar o mundo primeiro.

Por um instante, tudo fica tão quieto que chego a imaginar que o vibrar que sinto por todo o corpo seja apenas medo humano.

Mas então ele respira. Só uma vez, como se fosse um gesto raro, como se demandasse certo esforço. A voz grossa, afiada como cem mil laminas, faz com que cada fio de cabelo meu se arrepie. É como se ele rasgasse minha pele.

— Você é mais quieta do que eu esperava.

Meu coração responde antes que eu consiga impedir. A vibração aumenta e ondula conforme ele fala e sinto que, a qualquer momento, vou vomitar. Então, acho que isto é medo. 

Ele permanece me observando por um tempo longo demais. Longo o suficiente para que o silêncio se transforme em presença. Longo o suficiente para que eu deseje que ele diga algo, qualquer coisa, só para não ter que suportar o peso de seu olhar.

Mas ele apenas me estuda, como quem tenta lembrar de onde conhece uma pintura esquecida. E então, lentamente, se agacha. É isso que mais me surpreende: o gesto. Faeris não se agacham – eles pairam, rondam, sentam em tronos forjados com arrogância e esmeralda. Mas ele… ele dobra os joelhos no chão imundo da cela como se isso não significasse nada.

Pior. Como se eu significasse algo.

Meu instinto é recuar, mas meu corpo não obedece. Estou exausta demais até para o medo que vibra por todo o meu corpo, machucada demais para que me reste uma gota sequer de dignidade.

Ele se inclina, e seus olhos, agora ao nível dos meus, se estreitam. Consigo ver seu rosto, fino e másculo, perfeito e imortal. 

— Está ferida. — diz, com uma calma que não consigo entender.

— Estou. — murmuro, antes que consiga impedir. Minha voz sai fraca, arrastada, quase rasga minha garganta. Não sei sequer se ele consegue entender, pareço um animal.

Ele observa meus pés e franze o cenho.

— Não deveria estar.  — murmura mais para si mesmo do que para mim.

A confusão na voz dele é discreta, embora exista. É claro que ele esperava cicatrização. Esperava recuperação acelerada, como a de um faeri e como a que eu deveria ter se realmente fosse o que ele pensa que sou.

Sinto meu coração batendo ainda mais forte dentro do peito. Não pelo medo do que ele fará, mas pelo que ainda não sabe.

Eles não sabem.
Não sabem que não sou como eles.
Não sabem que sou metade.
Não sabem que estou aqui por engano.

E ele é o tipo de erro que não pode ser cometido duas vezes.

— Como se chama? — pergunta, mais baixo agora. Há algo inquisitivo e quase… cuidadoso na forma como fala.

— Dorothea — respondo, mais uma vez, sem pensar.

Lembro tarde demais que poderia, simplesmente, ter mentido. Agora, vai ser fácil descobrir que não sou verdadeiramente faeri tendo acesso ao meu nome verdadeiro: não há registros de nascimentos semi-faeri no pós-guerra. Não há registros, porque, simplesmente, não era para eu existir, e, embora eu fosse criada aos olhos de todos, ter registros, no Novo Reino, significava ter o sangue testado. Mamãe planejava alterar meu sangue com magia o suficiente para que enganasse o Grande Rei, mas não houve tempo. Fui capturada antes. 

De qualquer maneira, talvez não consiga mentir por estar fraca demais pela febre que me assola a dias e me inebria os sentidos. Ou o sangue perdido. Ou a solidão cravada na minha garganta.

Ele testa o som do meu nome em silêncio. Não o repete. Apenas desvia o olhar por um segundo, como se isso fosse alguma espécie de vitória íntima dele. E depois se levanta.

— Você não deveria estar no lado sul — diz, voltando à frieza.

Ah. Me perguntava porque havia sido pega tão abruptamente quando tinha certeza que era boa em me esconder. Minha mãe tinha amigos no lado sul, era necessário que fossemos lá a cada seis luas para refazer os feitiços de proteção e, mais do que isso, andei por aquele canto esquecido da floresta tempo o suficiente para conhecer cada detalhe, mas, mesmo para mim, foi uma surpresa quando vi o General Vaelis em pessoa, mandando todos os seus soldados até mim. 

É ainda mais surpreendente pensar em conversar com ele. Ajoelhado. Olhando nos meus olhos. 

— Não estava. Eu estava… só passando.

Ele me encara em completo silêncio. A face impassível, tornado impossível decifrá-lo.

A verdade é que mentiras nunca soam boas na boca de alguém que está à beira da morte, mas o que eu deveria fazer além de me agarrar ao que ele acha que sou?

Ele suspira. Não de cansaço, de decisão.

— Venha.

Demoro a entender. Ele abre a porta por inteiro. A luz se derrama pelo chão, quente, abrupta e me cega. Não sei quanto tempo se passou desde a última vez que vi tão claro e meus olhos reagem lacrimejando. Não deveriam, é claro. Não os olhos faeri que ele acha que tenho.

Ele, por outro lado, me oferece passagem. Um gesto simples que mais parece uma sentença.

— Por quê? — pergunto, sem conseguir evitar.

Tento, a todo custo, fazer com que meus olhos se adaptem o suficiente para que eu consiga fazer o que ele pede. Ele, por sua vez,  me encara como se a pergunta fosse irrelevante. Ou pior: como se não houvesse resposta possível que eu fosse capaz de compreender.

— Porque eu disse.

Só isso.

E então, pela primeira vez desde que fui arrancada do que conhecia como mundo, sou convidada a sair, mas nada em mim acredita que será para voltar. 

Meu corpo treme tanto que penso não ser capaz de acatar a ordem recebida, e, quando lembro do que fui fazer na floresta e percebo que ainda meus raptores não fazem ideia que sou mais humana do que faeri, me apavoro. Quanto tempo havia se passado? A magia devia ser feita a cada seis ciclos e, enclausurada nesta sala vazia e fria, sem a luz do sol ou a penumbra da lua, perdi a noção do tempo. Eu precisava sair dali o quanto antes, antes que a magia perdesse efeito e eu simplesmente... Não, não quero nem pensar. 

Meus pés descalços tocam a pedra fria quando me obrigo a levantar. A dor é aguda e traiçoeira. E o mais engraçado é que, quando me encontraram e decidiram me capturar com magia, sequer tocaram em mim, e, ainda assim, consegui me ferir. Tão patética, tão... mestiça. É por isso que o chão parece feito de lâminas embotadas: não cortam de uma vez, mas ferem com paciência enquanto coloco topo o peso do meu corpo na sola dos pés rasgados e inflamados. A dor é tanta que preciso de muito controle para não gritar.

Ele observa. Não se move para ajudar.

As grades rangem atrás de mim e, por um momento, penso que vai fechá-las outra vez;  que é este o sinal de que há sangue humano em minhas veias; que tudo foi uma miragem provocada pela fome ou pelo desespero, mas ele apenas espera.

Atravesso o limiar como quem cruza um rio congelado. Parte de mim ainda crê que é uma armadilha. Que não há liberdade, só uma forma mais elegante de punição. Mas a outra parte, a que ainda se agarra a qualquer migalha de sentido, decide acreditar.

O corredor do lado de fora é úmido e escuro, como uma garganta de pedra. A luz vem de esferas penduradas no teto, como casulos acesos por dentro. Um brilho branco, meio azul, que não aquece. Os faeri gostam de beleza estéril.

— Para onde estamos indo? — pergunto, com esforço.

Ele não responde.

Apenas caminha à frente, com passos firmes e silenciosos, como se conhecesse cada rachadura daquele lugar. Como se ele mesmo fosse parte da arquitetura.

Percebo que seus cabelos são escuros, longos, amarrados com um fio de couro trançado. As roupas têm tons que confundem a vista: algo entre o verde musgo e o cinza da madrugada. Ele parece mais sombra do que homem.

Não é bonito da maneira que os faeri costumam ser. É aterrorizante.

— Você é Vaelis Thorneveil. — constato, baixinho, sem saber por que faço isso.

Ele desacelera. Quase para.

Me arrependo da frase quase no mesmo instante em que ela sai da minha boca; no mesmo instante em que o vejo reagir. É claro que é, não haveria como não ser. Mesmo aqueles que nunca o viram, como eu, saberiam o reconhecer. 

Vaelis é o tipo de criatura que faz o medo voltar a ter corpo. Sua presença não se anuncia com palavras ou estrondos, mas com o arrepio súbito na nuca, com o gelo no estômago, com o tremor involuntário nas mãos. Ninguém precisa ser avisado de que ele entrou em um salão: o corpo sente antes da mente entender.

É alto, quase dois metros de sombra viva. O corpo, moldado pela guerra, é musculoso e contido, com uma força que não precisa se exibir. A pele, branca como a cal da morte, quase reluz à luz da tocha, parecendo feita de pedra fria. Os cabelos são negros, lisos e longos. As orelhas, pontiagudas e horizontais, o denunciam como pertencente a uma casta faeri muito mais antiga,  daquelas que existiam antes da beleza e da luz serem associadas à sua raça. Tão diferentes das minhas, pequenas, simples, comuns

Seus traços são finos, esculpidos com precisão quase cruel: o maxilar marcado, o nariz reto, os lábios finos e sempre cerrados. Mas não há doçura ali. Nem humanidade. 

O que realmente o define é o olhar... ou a ausência dele: uma cicatriz profunda rasga seu rosto do alto da sobrancelha até metade do nariz, atravessando o olho esquerdo como um raio queimado pela guerra. O globo ocular, opaco, sem brilho, parece feito de névoa congelada. O outro olho — intacto — é de um dourado febril, vivo e cruel, como se carregasse fogo concentrado.

Olhar para ele por muito tempo é como se jogar ao abismo.
Não olhar é como desafiá-lo.

É difícil desviar o olhar tanto quanto é continuar olhando.

A cicatriz o marcou para sempre. Não só no rosto, mas na lenda. Ela foi o preço pelo ataque que selou a vitória do Conselho sobre os rebeldes, a batalha que destruiu três reinos mestiços e instaurou o Novo Reino. Desde então, sua figura se tornou símbolo de lealdade implacável, de silêncio e de medo.
Diz-se que Vaelis nunca levanta a voz. Porque não precisa.

Quando ele aparece, até as paredes parecem segurar o fôlego.

— Eu sou muitos, Dorothea — diz sem se virar, e, então, continua.

Sei que deveria me calar. Mas o silêncio é mais cruel do que a ignorância.

— E por que me tirou de lá?

Dessa vez ele responde sem hesitar:

— Porque ninguém sobrevive naquela cela por três ciclos sem enlouquecer. E você… não enlouqueceu.

A risada que escapa da minha boca é seca, dolorida, involuntária.

É impossível que tenha se passado três ciclos inteiros. Impossível que ainda consiga andar ou mesmo falar depois de todo este tempo com o mínimo de água e comida. Três ciclos... eu não deveria ter enlouquecido: deveria ter morrido antes mesmo do segundo começar. 

— Três... ciclos? – pergunto, ainda incerta.   

Ele não responde.

Continuamos por corredores cada vez mais estreitos, como se nos afastássemos do coração da prisão. Mas há algo errado: o ar começa a mudar. Fica mais limpo. Mais fresco. Ouço um som distante que só pode indicar água corrente.

Ele para diante de uma porta de pedra entalhada com símbolos antigos. Coloca a mão sobre um deles. A marca brilha, viva, e a porta se desfaz como poeira ao vento – magia ancestral que jamais poderei usar.

Atrás dela, há uma câmara pequena. Um aposento de pedra polida com um leito simples, um jarro de água e uma tocha encantada que bruxuleia sem consumir nada.

— Fique aqui — diz ele, sem me olhar. — Alguém virá com roupas. E comida.

— Alguém?

Ele hesita. Apenas por um segundo.

— Alguém.

E então se afasta, como se tivesse cumprido sua parte.

Mas antes de desaparecer no corredor, ele se vira. Seu rosto imortal, lindo e cruel na mesma medida, me encara.

— Não fale com ninguém sobre... Você

O olhar dele é tão cortante que me dá calafrios. Sinto meu estômago se revirar outra vez e, agora, a vibração, que nunca me deixou, volta tão forte que sinto um zumbido nas orelhas. Meus pés latejam, a dor me apavora tanto quanto a ordem, e percebo que deixei um rastro de sangue por todo o caminho. 

E então ele se vai, silencioso e letal, deixando para trás apenas uma única certeza: teria sido melhor que tivessem me matado.

faeri que tratou meus pés surgiu como uma sombra e partiu como um segredo. Nunca soube o nome dele: vinha em doses pequenas e ficava apenas o tempo necessário para impedir que eu apodrecesse. Limpou todo o sangue, envolveu meus cortes com um bálsamo espesso e frio e os enfaixou com precisão clínica.

Tudo o que lembro é que havia sempre certa urgência em seus gestos e, como a criatura evitava meu olhar, passei a notar para onde ele direcionava o seu – longe; sempre longe de mim. Me perguntava o que se passava em sua cabeça, mas, depois do terceiro dia de cuidados, tive certeza de que ele desconfiava de algo: as feridas não fechavam e, embora não estivessem mais fedendo, ainda pareciam nojentas o suficiente para que ele soubesse o que eu não era.

No quarto dia, ele desapareceu.

Desde então, fui deixada aos cuidados de uma senhora de cabelos prateados e mãos cheias de rugas. Diferente dele, ela fala. Não muito, mas o suficiente para me lembrar de que ainda pertenço a este mundo. Às vezes, quando acha que durmo, murmura frases desconexas enquanto troca os panos das janelas e alinha os vidros na prateleira, quase como se não conseguisse manter os pensamentos dentro da própria cabeça.

Meus pés ainda doem e os cortes cicatrizaram devagar. Mais devagar do que eu gostaria e, com certeza, mais devagar do que seria normal para uma faeri. Ainda os sinto frágeis, como se cada passo pudesse rasgar tudo de novo. Uma lembrança viva da punição e uma prova incontestável de que eu não pertenço a esse lugar. Que nunca pertenci, mesmo que, na aparência, fossemos praticamente idênticos.

Primeiro, passei dias apenas deitada, observando o teto, porque não queria arriscar o peso do meu próprio corpo sob meus pés. Depois, sentada na poltrona ao lado da janela fechada, passei a ensaiar jeitos de sair daqueles aposentos – eu sequer tinha certeza se estava presa de verdade, mas não havia uma gota de magia ancestral em meu sangue que fosse capaz de abrir aquelas paredes de pedra, ou, ao menos, tentar. Também não havia muito o que eu pudesse fazer, no inicio, com os pés machucados daquela forma. Mas meus olhos estavam atentos e, minha mente, também.

A criada que ele mandou é meticulosa, mas previsível. Tem horários. Tem vícios. Ela demora demais antes de voltar a fechar a parede com as runas, solta um suspiro sempre que termina de costurar algo, e, as vezes, hesita quando me vê sorrir. Não confia em mim, e, por isso, enquanto estava em sua presença, fingia não levantar por vontade – nunca porque não podia – e, desta forma, ela passou a acreditar que sou uma simples tola.

Eu alimento essa crença. Aprendi a sorrir com doçura e inclinar a cabeça de um jeito que sei que pareço menor e mais frágil, quase infantil. Finjo me assustar com barulhos, agradecer demais pelos favores e até elogio as sopas aguadas como se fossem banquetes diretos de Cindralon. Quando ela passa a sorrir de volta, o rosto suavizando, sei que está caindo na armadilha.

Em uma das manhãs, implorei para ver as flores. “Só um pouquinho”, disse, segurando sua mão com um olhar que roubei de uma menina que vi morrer na fronteira, como se estivesse acostumada demais com jardins para que a ideia de não os ver fosse insuportável. “Prometo que, se me fizer mal, eu saio voando de volta para cá.”, menti, como se realmente fosse capaz de tal. Nunca havia voado, e, mesmo que tivesse, jamais saberia usar as runas para abrir o cômodo.

Ela riu, achando graça. Me achou inofensiva e, então, permitiu.

O jardim não era grande. Havia algumas flores silvestres, arbustos bem cuidados e estátuas antigas cobertas de heras. Era lindo, embora modesto, e percebo, pela primeira vez, que estou nos domínios de alguém importante. A faeri havia me deixado sozinha com a promessa de que voltaria dali a pouco, confiante o suficiente de minha fragilidade e doçura forjadas para ter certeza de que eu sequer tentaria escapar – e eu não iria, por hora. Àquela altura, vestia roupas boas o suficiente para que não fosse confundida com uma invasora e, com a minha aparência tipicamente faeri, embora todo o resto de mim não o fosse, conseguia transitar sem chamar atenção.

No entanto, não foi a beleza do lugar que me prendeu, mas os sussurros.

A voz veio de além da sebe, baixa, pouco audível, como se confiada demais pela própria sombra. A princípio, achei que fosse um par de criadas e me aproximei com passos cuidadosos, inclinando a cabeça para parecer distraída com as flores, como se caçasse uma pétala especial, como se realmente tivesse com saudade da natureza. Só depois, já próxima o suficiente para não ser vista e, ainda assim, ser capaz de escutar, percebi o timbre mais duro e autoritário.

— já tomaram a ala oeste. O Conselho fingiu não saber, mas foi ordenado.

— E os registros?

— Reescritos. Os arquivos que provavam o sangue cruzado… sumiram. Não há sinal em lugar algum do paradeiro.

— Se isso vier à tona...

— Não virá. Nenhum deles será capaz de admitir.

O silêncio que seguiu foi mais pesado do que as palavras.

Minhas costas ficaram tensas e sequer ousei respirar, me abaixando atrás de uma trepadeira grossa, fingindo olhar uma flor em botão, enquanto colocava todo o meu corpo em alerta.

Se eu tivesse entendido bem, o Conselho escondia... mestiços?

Quase consigo sentir meu coração sair pela boca e, pela forma como pulsa, sei que meus olhos mudaram de cor. Desde que havia ganhado certa confiança na rotina que ali me fora imposta, eles haviam voltado a cor castanha habitual, mas eu tinha certeza, pelo arrepio que tomava toda a minha espinha, que  deviam exibir os mesmos tons de cinza que eu carregava quando fui capturada.

O tempo vinha passando rápido demais. Logo mais a magia ia enfraquecer o suficiente para que cada olhar faeri sobre mim percebesse, sem esforço algum, que eu não era como eles: não andava como eles; não cheirava como eles; não tinha a beleza deles. 

Seguro um grito quando escuto a criada chamar meu nome, sua voz cortando o jardim com leveza, soando como um alerta. Levantei com esforço, como se o calor tivesse me vencido e, torcendo para que ela não repare em meus olhos, sorrio como uma tola e caminho até seu encontro, uma flor em botão presa entre os dedos.

A senhora toma meu braço com uma gentileza forçada, mas percebo a rigidez nos seus dedos. Minha mente tenta entender o que fazer para alterar a cor dos meus olhos, para que ela não os perceba, assim como já vi alguns faeri o fazer, mas o meu lado fraco, o lado humano, não me deixa dominar. Estou suando frio, quando ela suspira e diz.

— Passou muito tempo no sol, criança. Vai enfraquecer de novo.

Assinto com um aceno pequeno e me deixo ser conduzida de volta ao quarto. Durante o caminho, aperto os lábios para não perguntar nada, para não ceder à urgência de saber mais sobre o que ouvi.

Quando voltamos ao quarto, o jarro de água havia sido trocado, e, as almofadas haviam sido afofadas com mais zelo do que o habitual. Os frascos na prateleira estavam organizados em uma nova ordem, numa mudança tão pequena, quase imperceptível. A senhora pareceu hesitar antes de me soltar, e seus olhos demoraram mais do que o necessário sobre os meus. 

Segurei o fôlego.

A cor. Maldição, a cor.

Tentei manter o olhar baixo, quase opaco, como se o calor do jardim tivesse me vencido e murmurei um agradecimento fraco, sorrindo com uma doçura ensaiada e me afundei nas almofadas assim que ela saiu. Se notou alguma mudança, resolveu não comentar.

É só então que solto o ar que sequer sabia que estava prendendo.

Ando, cuidadosa, até o espelho mais próximo. Meu olhar cinzento me encarando de volta. Inferno. Quanto tempo demoraria para que voltassem ao normal? Eu ainda conseguia sentir a vibração nos ossos, o tremor involuntário da mácula que carregava.

Me afasto do espelho, sem conseguir me olhar de verdade.

As palavras que ouvi no jardim continuam se repetindo em mim como um eco sem fim. A ala oeste. Os arquivos. O sangue cruzado. A queima dos registros. O que isso significava?

Nunca tinha ouvido falar nisso. Nunca. E olha que eu aprendi, desde muito nova, a escutar. A memorizar o que não era dito, a me esconder a vista de todos. A sobreviver.

Mas… arquivos reescritos? Registros apagados?

Que tipo de verdade é perigosa o suficiente para precisar ser extinta?

Levo a mão até a perna, sentindo a dor antiga nas juntas, e tento lembrar da última vez que vi minha mãe. Ou minhas irmãs. A memória é falha, borrada pelas imagens da fuga: meus pés descalços correndo sobre raízes, o som dos faeri  me caçando, as runas queimando no ar, o cheiro de folha molhada e sangue.

Fui arrancada da floresta como se nunca tivesse pertencido a ela. E mesmo que eu voltasse… voltaria pra onde? Estava longe o suficiente de casa no dia que me capturaram e jamais poderia arriscar voltar só para colocar minha família, de sangue puro, em risco por abrigar alguém como eu. Uma mestiça.

Passei toda a minha vida escondendo a verdade bem debaixo do nariz de todo mundo. As vezes, até me esquecia eu mesma de que não era como minhas irmãs – lindas, graciosas, imortais. A medida que os anos passavam, o peso de ser diferente era cada vez mais avassalador.

Fecho os olhos.

Pela primeira vez desde que cheguei aqui, sinto algo diferente do medo.

Sinto... falta. Falta de alguém chamar meu nome com ternura; de ouvir minha mãe cantarolar enquanto penteava meus cabelos; das pequenas mãos das minhas irmãs segurando as minhas quando o mundo parecia grande demais.

O broto de flor que trouxe do jardim ainda está comigo. Coloco-a sobre a prateleira, ao lado de um dos frascos. Suas pétalas ainda estão firmes. A cor, viva. Um pequeno milagre.

As vezes, a ignorância é mesmo uma benção. 

8.2.17

sinopse

Há um Reino, depois da área das fadas, antes da floresta vermelha, chamado Kupzrryihm.
Kupzrryihm é governado á anos pela rainha Alicia, que tem o coração tão duro quanto uma pedra. Para a própria segurança, Alicia passou a criar os dragões de ossos, que comem carnes femininas puras. Desde então, toda moça ainda não comprometida entre os quinze e dezoito anos deve ser levada ao castelo para o sacrifício.  Hazel é uma delas. A moça vive com medo do que á espera, e por conta disso planeja mil e uma maneiras de sair da sala grande e escura, mas não conseguiria sozinha. Então, aparece Sebastian, um rapaz magricela e ousado que resolve tentar livrar a pobre donzela da morte, por vingança ao que fizeram á sua irmã. Mas o destino nem sempre soprará ao favor do casal.

1

Aprisionada em uma grande sala vazia e fria, estava ela, sozinha, arquitetando um plano pra sair daquele lugar onde a luz do Sol não batia. Poderia arquitetar o maior plano de fuga de todos, mas aquilo não era um conto de fadas, e ela não era a princesa. Nunca conseguiria sair de lá com uma faca, muito menos com um prego.
Limpou o vestido sujo e estrupiado com as mãos calejadas, deu um passo sobre o chão frio e arregalou os olhos quando ouviu vozes vindo em direção a sala onde vivia aprisionada. Ficou com medo de ser maltratada mais uma vez, mas quando ouviu a voz protestante de um garoto sentiu o coração apertar. Ninguém merecia viver trancado sem a luz do Sol.
Mas não entendia o que um garoto fazia ali.
Correu em direção ao colchão fino, sujo e fedido que dormia todas as noites tentando aquecer-se do frio, uma tarefa impossível: Naquele reino o frio era cortante como o gelo. Deitou-se fingindo dormir, se continuasse parada no meio da sala seria bem pior. Foi então que as vozes começaram á ficar claras: " Não irei ficar aqui por muito tempo!" Risadas ecoaram ainda mais alto que a fala do menino " Idiotas!" " Cale-se, plebeu." Estranhamente era a voz de uma mulher. Então o barulho do chicote contra a pele ecoou, em seguida, menos de um segundo depois, um grito de dor.
O barulho da porta se abrindo. Logo em seguida as grades também se abriram. A loira encolheu-se mais ainda, também prendeu a respiração. O menino foi jogado no chão duro e frio com força, logo depois mais uma chicoteada e mais um grito de dor, desta vez ainda mais forte. A menina fechou os olhos com força, tentando não lembrar como aquilo doía.
Os guardas saíram rindo, em seguida trancaram a grade novamente.
O menino permaneceu deitado da mesma forma que tinha caído. Hazel virou-se e o observou, mesmo no escuro era fácil notar que a blusa além rasgada estava manchada pelo sangue. Pensou em ajudá-lo, mas, e se ele tivesse alguma mulher? Todos sabiam que mulheres descompromissadas não deviam conversar com homens comprometidos. Mas e se ele não tivesse uma esposa e ela não o ajudasse por bobagem? Resolveu, por fim, ajudá-lo.
Levantou-se com cuidado, com medo de se aproximar; não que tivesse medo dele, mas nunca tinha ficado presa com nenhum homem antes. Nem mesmo tinha ficado sozinha com os próprios irmãos. Aquilo era no minimo, estranho.
Quando chegou até ele, o mesmo á olhou, e ela pode ver que uma das chicotadas foi no rosto. Uma parte da boca estava sangrando, bem perto do olho já se mostrava o inchaço  e a sobrancelha sangrenta, a bochecha que antes era rosa agora estava vermelha devido ao sangue do mesmo. Teve sorte, já vira situações piores, como por exemplo Susan, sua ex-colega de prisão: Apanhou tanto que acabou morrendo minutos depois. Mas uma coisa era estranha: Guardas não devem bater nos rostos dos prisioneiros, isto é uma regra desde que Alicia assumiu o trono de seu pai. Se tem uma coisa que aquela mulher preserva era a beleza.
A menina deu as costas ao garoto e voltou para de junto do colchão, onde pegou um balde cheio de água e o resto do Sal que recebeu no almoço.
O almoço não era grande coisa, na verdade, Hazel nunca o comia. Era o sal, a água e nada mais. As pessoas que o comeu durante uma semana tiveram problemas sérios e acabaram, em seguida, morrendo. As que não comiam eram mandadas para os dragões antes de morrerem de fome ou cometiam canibalismo com seus colegas de prisão.
Voltou até o mesmo que se manteve quieto, nem um movimento ele tentara. A moça pegou a faca que tinha achado debaixo do colchão, entre os seus seios. Por conta do vestido sem decote dava pra esconder muito bem. Com a faca arrancou uma parte pequena do vestido e encarou o menino.
_ Faria um esforço para sentar-se?
Com a ajuda de Hazel, Sebastian conseguiu sentar-se, ainda assim tinha dificuldade pra manter a posição. Não era pra menos.
Mergulhou o pequeno pedaço de pano no balde cheio de água e o passou de leve pela boca inchada do menino. Sabia que aquilo estava doendo, não só pela expressão dele, mas por já ter passado por isso. Sabia, também, que aquilo iria ficar ainda pior com o passar dos dias. Talvez levasse a morte, e apesar de serem estranhos um para o outro, rezava pra que ele ficasse bem logo.
Encarando o rosto do menino, Hazel o reconheceu da escola. Eles eram da mesma classe, embora nunca tenham trocado muitas palavras. Ficou aliviada por saber que ele não era compromissado: a noiva se matou antes do casamento. É uma historia triste, pois eles eram bem próximos um do outro. Ninguém sabe o motivo dela ter se matado, e se souberam, não falaram á ninguém.  Tudo que Hazel sabia é que á acharam numa arvore com uma corda amarrada em volta do pescoço, era a corda que á sustentava. Os pés estavam á poucos centímetros do chão e a face rocha. No enterro os pais não choraram, e Sebastian não apareceu; muitos dizem que ele sentou em baixo da árvore que há acharam e ficou lá por um dia completo. Hazel nunca teve vontade de saber mais do que isso, á historia á assustava.
Depois de ter limpado todo o sangue de Sebastian e passado sal nos ferimentos, Hazel o ajudou á ir até o colchão. Claro que dormir num chão duro e frio é ruim, mas o rapaz estava em condições piores que a sua, então, cedeu o lugar.
Sebastian não demorou á dormir. E pro azar de Hazel, nem os guardas á aparecer. Não sabia o motivo de eles estarem ali, mas quando os guardas aparecem nunca é por um motivo bom. 

2

As portas se abriram e Hazel abraçou a pernas, se encolhendo, como sempre fazia. Esperava que o pior acontecesse pois  temia os viventes mais que qualquer coisa.
Sebastian continuava quieto, embora Hazel tivesse certeza de que o mesmo já havia acordado.
Hazel quase não acreditava na coragem do menino: Ninguém nunca tinha tratado os guardas daquela maneira! talvez pela maioria dos prisioneiros serem garotas, mas ainda assim quando eram os meninos a serem presos ainda permaneciam calados. Quando fora presa, Hazel não falara nada, nem mesmo lutou para ficar livre, por isso admirara o garoto por sua coragem, embora também o achasse louco.
Os guardas entraram e andaram em direção a Hazel, pelo menos fora o que a menina achou até que os mesmos levantaram Sebastian. Esse, por sua vez, soltou um gemido de dor, embora tentasse se manter forte na frente dos guardas.
Um dos guardas tirou parte da armadura que protegia e cobria seu rosto, revelando a face de uma linda mulher. Era morena, de cabelo curto e escuro, a boca era de um vermelho vivo, mas perdia toda a beleza com aquela postura que tomava.
_ Vamos lá garoto, faça um estrago no meu rosto! - Estendeu um chicote para Sebastian, que não se mexeu. - Vamos! O que esta esperando?
_ Julie, primeiro explique porque ele tem que fazê-lo.
Hazel olhou em direção a voz e avistou um homem apoiado na parede. Ele parecia ser o lider dos guardas. Hazel já ouvira historias a seu respeito, ele era um homem cruel.
_ Não me chame de Julie!
_ Julie, você ouviu o que eu a mandei  fazer? Posso repetir sem problema algum.
A mulher revirou os olhos e bufou, derrotada.
Era a primeira vez que Hazel presenciava uma cena como aquela. Normalmente eram os guardas quem davam as ordens, mas o que estava acontecendo no momento contradizia tudo: Os guardas eram aqueles que obedeciam.
_ Então, garoto... Eu bati no seu rosto com essa droga de chicote, e agora estou sendo penalizada. Que tal acabar com isso logo?
A voz dela soava cínica, como se aquilo não fosse nada de mais. Mas todos ali presentes estavam cientes de que a humilhação que Julie estava submetida a passar era grande.
Sebastian olhou para o chicote, que lhe parecia bastante tentador, então olhou para o rosto da mulher. Era uma mulher! Ele não faria isso, não era como seu pai.
_ Peça a outro.
A voz rouca de Sebastian saiu baixa, embora tenha falado com convicção.
Jullie, levantou uma das sobrancelhas como se não estivesse acreditando no que ouvira. Seus companheiros, Hazel podia jurar, fizeram o mesmo.
_ Eu acho que você não ouviu direito, garoto..-
_ Na verdade, eu ouvi sim. Só não quero faze-lo, então de novo, peça a outro.
O mesmo homem que se pronunciara antes  soltou um risinho alto o suficiente para trazer a atenção toda a si proprio. Chamou os guardas com a mão, e Sebastian pôde jurar, Jullie quase sorriu aliviada.
Quando os guardas sairam, Sebastian jogou-se no chão cansado. Hazel correu até seu encontro.
_ Porque não o fez?
_ Você o faria em meu lugar?
Perguntou cauteloso, enquanto estudava o rosto da menina.
_ Eu tenho meus motivos para querer faze-lo.  - Olhou Sebastian por um estante antes de desviar os olhos e pergunta-lhe novamente: - Porque não o fez?
_ Porque sou idiota de mais a ponto de não conseguir bater em uma mulher. - Ele foi sincero, mesmo desejando não ter sido - E porque não quero ser como eles.

_ Acredite, você é melhor!

3

Hazel estava apavorada. Acordara com sons altos de gritos e rugidos, isso só a levara a uma coisa: Mais uma morte provocada pelos famosos dragões da rainha.
As vezes, a loura pegava-se pensando o que se passava na cabeça da mulher, chamada por todos de “ Vossa Majestade”. Acreditava que era um verdadeiro labirinto macabro, cheio de interesse e ideias horríveis. Achava que a rainha era jovem de idade e idosa de espirito, uma tipica bruxa má sem sentimentos, que vivia feliz observando o sofrimento de seus iguais. Nojo. Hazel sentia nojo de sua majestade, um pecado que ela ainda irá pagar, sempre pagamos.
Encostado em um dos cantos da pequena sala, coberto pela escuridão, Sebastian estava sentado ao lado de Hazel. Estava mais quieto do que nunca, como sempre ficava ao ouvir a morte das pobres donzelas.
Hazel sabia muito pouco sobre ele e mesmo assim não tentara descobrir mais do que já sabia. A vida dele parecia perturbadora de mais, não que a dela mesma não fosse, mas era melhor não fazer parte disso, embora estava consciente: já fazia.
O que estavam vivendo agora provavelmente seria o ultimo capítulo de suas vidas. Talvez Sebastian tivesse sorte e conseguisse sair dali vivo, mas Hazel... Pobre Hazel, está destinada a uma morte tão sombria que até os piores seres teriam pena.
Quando os gritos pararam Sebastian soltou um suspiro. Hazel só não soube decifrar bem, seria por pena ou tristeza? Ambas as opções pareciam bem convincentes.
_ Acha que eles as torturam antes de as mandar para a morte?
A pergunta do garoto pegou Hazel de surpresa.
Se Sebastian pudesse ver a rosto dela nesse exato momento pediria desculpas pela pergunta inapropriada, afinal, estavam falando de como seria seu fim, mas ele não apareceu importar-se, ou talvez não tenha percebido.
_ Nunca imaginei como seria a minha morte.
Sebastian ficou em silêncio por um tempo. E foi um silêncio constrangedor, daqueles que demora muito tempo para acabar embora tenha durado pouco mais que um minuto e meio.
_ Desculpe.
Hazel não o respondeu. Em vez disso balançou a cabeça em sinal positivo, mesmo estando ciente de que ele não poderia enxerga-la por conta da escuridão.
A escuridão era tanta que Hazel quase não se lembrava como era sentir o Sol. Quase não lembrava como era dormir olhando as estrelas. Quase não lembrava de como andar na grama era tão bom. Mas mesmo que pudesse sair viva dessa, ela não esqueceria nunca como é ficar em meio as sombras, sendo maltratada e passando fome. Isso era impossível apagar da memoria embora fosse tudo o que ela mais queria.
_ Fora um erro meu pai não querer que eu me casasse. _ Deu uma risadinha sem graça e olhou na direção de Sebastian, mesmo que só pudesse ver a escuridão em sua frente _ Mas eles também foram tolos em me deixar prisioneira junto a um garoto. A maioria das prisioneiras o forçariam a fazer... Bem, aquilo com elas... Só para se livrar da morte.
_ O que você quer dizer com isso?
_ Quero dizer que eles são burros.
_ Ah... Sim... Com certeza!
Hazel riu da interpretação errada do menino, embora sim, tivesse algumas poucas pitadas de segundas intenções naquela frase.
A menina podia jurar que as bochechas do seu companheiro estavam tão vermelhas, quanto o sangue grudado em sua camisa. Ela tinha esse dom de deixar os garotos com vergonha, mas não fazia por mal... Na menor parte.
Então ouviram mais gritos e Sebastian entrou naquele estado novamente. Hazel fez uma tentativa falha de tapar os ouvidos para abafar o som, mas continuava ouvindo nitidamente.
_ Não queria acabar como elas.
_ Você não precisa.
_ Eu não posso escolher.
_ Você tem uma faca!
_ E o que é uma faca perto de guardas protegidos pela armadura?
_ É a chance de lutar pela vida, Hazel.
Hazel calou-se e se pegou pensando no que acabara de ouvir. Ele tinha razão. Ela vinha subestimando-se a um bom tempo, teria Sebastian um poder sobre as palavras? Ele era curto e tão bom com elas que Hazel quase acreditara que era capaz. Quase.
_ Não tenho força o suficiente.
_ Eu estou aqui, não estou?
_ Esta dizendo que esta disposto a lutar por minha liberdade?
_ Estou disposto a lutar por nossa liberdade.
Após um certo tempo sem nenhum dos dois se pronunciar, Hazel tomou a iniciativa:
_ Você é uma pessoa boa, Sebastian.

_ Acredite, não sou.