8.2.17

sinopse

Há um Reino, depois da área das fadas, antes da floresta vermelha, chamado Kupzrryihm.
Kupzrryihm é governado á anos pela rainha Alicia, que tem o coração tão duro quanto uma pedra. Para a própria segurança, Alicia passou a criar os dragões de ossos, que comem carnes femininas puras. Desde então, toda moça ainda não comprometida entre os quinze e dezoito anos deve ser levada ao castelo para o sacrifício.  Hazel é uma delas. A moça vive com medo do que á espera, e por conta disso planeja mil e uma maneiras de sair da sala grande e escura, mas não conseguiria sozinha. Então, aparece Sebastian, um rapaz magricela e ousado que resolve tentar livrar a pobre donzela da morte, por vingança ao que fizeram á sua irmã. Mas o destino nem sempre soprará ao favor do casal.

1

Aprisionada em uma grande sala vazia e fria, estava ela, sozinha, arquitetando um plano pra sair daquele lugar onde a luz do Sol não batia. Poderia arquitetar o maior plano de fuga de todos, mas aquilo não era um conto de fadas, e ela não era a princesa. Nunca conseguiria sair de lá com uma faca, muito menos com um prego.
Limpou o vestido sujo e estrupiado com as mãos calejadas, deu um passo sobre o chão frio e arregalou os olhos quando ouviu vozes vindo em direção a sala onde vivia aprisionada. Ficou com medo de ser maltratada mais uma vez, mas quando ouviu a voz protestante de um garoto sentiu o coração apertar. Ninguém merecia viver trancado sem a luz do Sol.
Mas não entendia o que um garoto fazia ali.
Correu em direção ao colchão fino, sujo e fedido que dormia todas as noites tentando aquecer-se do frio, uma tarefa impossível: Naquele reino o frio era cortante como o gelo. Deitou-se fingindo dormir, se continuasse parada no meio da sala seria bem pior. Foi então que as vozes começaram á ficar claras: " Não irei ficar aqui por muito tempo!" Risadas ecoaram ainda mais alto que a fala do menino " Idiotas!" " Cale-se, plebeu." Estranhamente era a voz de uma mulher. Então o barulho do chicote contra a pele ecoou, em seguida, menos de um segundo depois, um grito de dor.
O barulho da porta se abrindo. Logo em seguida as grades também se abriram. A loira encolheu-se mais ainda, também prendeu a respiração. O menino foi jogado no chão duro e frio com força, logo depois mais uma chicoteada e mais um grito de dor, desta vez ainda mais forte. A menina fechou os olhos com força, tentando não lembrar como aquilo doía.
Os guardas saíram rindo, em seguida trancaram a grade novamente.
O menino permaneceu deitado da mesma forma que tinha caído. Hazel virou-se e o observou, mesmo no escuro era fácil notar que a blusa além rasgada estava manchada pelo sangue. Pensou em ajudá-lo, mas, e se ele tivesse alguma mulher? Todos sabiam que mulheres descompromissadas não deviam conversar com homens comprometidos. Mas e se ele não tivesse uma esposa e ela não o ajudasse por bobagem? Resolveu, por fim, ajudá-lo.
Levantou-se com cuidado, com medo de se aproximar; não que tivesse medo dele, mas nunca tinha ficado presa com nenhum homem antes. Nem mesmo tinha ficado sozinha com os próprios irmãos. Aquilo era no minimo, estranho.
Quando chegou até ele, o mesmo á olhou, e ela pode ver que uma das chicotadas foi no rosto. Uma parte da boca estava sangrando, bem perto do olho já se mostrava o inchaço  e a sobrancelha sangrenta, a bochecha que antes era rosa agora estava vermelha devido ao sangue do mesmo. Teve sorte, já vira situações piores, como por exemplo Susan, sua ex-colega de prisão: Apanhou tanto que acabou morrendo minutos depois. Mas uma coisa era estranha: Guardas não devem bater nos rostos dos prisioneiros, isto é uma regra desde que Alicia assumiu o trono de seu pai. Se tem uma coisa que aquela mulher preserva era a beleza.
A menina deu as costas ao garoto e voltou para de junto do colchão, onde pegou um balde cheio de água e o resto do Sal que recebeu no almoço.
O almoço não era grande coisa, na verdade, Hazel nunca o comia. Era o sal, a água e nada mais. As pessoas que o comeu durante uma semana tiveram problemas sérios e acabaram, em seguida, morrendo. As que não comiam eram mandadas para os dragões antes de morrerem de fome ou cometiam canibalismo com seus colegas de prisão.
Voltou até o mesmo que se manteve quieto, nem um movimento ele tentara. A moça pegou a faca que tinha achado debaixo do colchão, entre os seus seios. Por conta do vestido sem decote dava pra esconder muito bem. Com a faca arrancou uma parte pequena do vestido e encarou o menino.
_ Faria um esforço para sentar-se?
Com a ajuda de Hazel, Sebastian conseguiu sentar-se, ainda assim tinha dificuldade pra manter a posição. Não era pra menos.
Mergulhou o pequeno pedaço de pano no balde cheio de água e o passou de leve pela boca inchada do menino. Sabia que aquilo estava doendo, não só pela expressão dele, mas por já ter passado por isso. Sabia, também, que aquilo iria ficar ainda pior com o passar dos dias. Talvez levasse a morte, e apesar de serem estranhos um para o outro, rezava pra que ele ficasse bem logo.
Encarando o rosto do menino, Hazel o reconheceu da escola. Eles eram da mesma classe, embora nunca tenham trocado muitas palavras. Ficou aliviada por saber que ele não era compromissado: a noiva se matou antes do casamento. É uma historia triste, pois eles eram bem próximos um do outro. Ninguém sabe o motivo dela ter se matado, e se souberam, não falaram á ninguém.  Tudo que Hazel sabia é que á acharam numa arvore com uma corda amarrada em volta do pescoço, era a corda que á sustentava. Os pés estavam á poucos centímetros do chão e a face rocha. No enterro os pais não choraram, e Sebastian não apareceu; muitos dizem que ele sentou em baixo da árvore que há acharam e ficou lá por um dia completo. Hazel nunca teve vontade de saber mais do que isso, á historia á assustava.
Depois de ter limpado todo o sangue de Sebastian e passado sal nos ferimentos, Hazel o ajudou á ir até o colchão. Claro que dormir num chão duro e frio é ruim, mas o rapaz estava em condições piores que a sua, então, cedeu o lugar.
Sebastian não demorou á dormir. E pro azar de Hazel, nem os guardas á aparecer. Não sabia o motivo de eles estarem ali, mas quando os guardas aparecem nunca é por um motivo bom. 

2

As portas se abriram e Hazel abraçou a pernas, se encolhendo, como sempre fazia. Esperava que o pior acontecesse pois  temia os viventes mais que qualquer coisa.
Sebastian continuava quieto, embora Hazel tivesse certeza de que o mesmo já havia acordado.
Hazel quase não acreditava na coragem do menino: Ninguém nunca tinha tratado os guardas daquela maneira! talvez pela maioria dos prisioneiros serem garotas, mas ainda assim quando eram os meninos a serem presos ainda permaneciam calados. Quando fora presa, Hazel não falara nada, nem mesmo lutou para ficar livre, por isso admirara o garoto por sua coragem, embora também o achasse louco.
Os guardas entraram e andaram em direção a Hazel, pelo menos fora o que a menina achou até que os mesmos levantaram Sebastian. Esse, por sua vez, soltou um gemido de dor, embora tentasse se manter forte na frente dos guardas.
Um dos guardas tirou parte da armadura que protegia e cobria seu rosto, revelando a face de uma linda mulher. Era morena, de cabelo curto e escuro, a boca era de um vermelho vivo, mas perdia toda a beleza com aquela postura que tomava.
_ Vamos lá garoto, faça um estrago no meu rosto! - Estendeu um chicote para Sebastian, que não se mexeu. - Vamos! O que esta esperando?
_ Julie, primeiro explique porque ele tem que fazê-lo.
Hazel olhou em direção a voz e avistou um homem apoiado na parede. Ele parecia ser o lider dos guardas. Hazel já ouvira historias a seu respeito, ele era um homem cruel.
_ Não me chame de Julie!
_ Julie, você ouviu o que eu a mandei  fazer? Posso repetir sem problema algum.
A mulher revirou os olhos e bufou, derrotada.
Era a primeira vez que Hazel presenciava uma cena como aquela. Normalmente eram os guardas quem davam as ordens, mas o que estava acontecendo no momento contradizia tudo: Os guardas eram aqueles que obedeciam.
_ Então, garoto... Eu bati no seu rosto com essa droga de chicote, e agora estou sendo penalizada. Que tal acabar com isso logo?
A voz dela soava cínica, como se aquilo não fosse nada de mais. Mas todos ali presentes estavam cientes de que a humilhação que Julie estava submetida a passar era grande.
Sebastian olhou para o chicote, que lhe parecia bastante tentador, então olhou para o rosto da mulher. Era uma mulher! Ele não faria isso, não era como seu pai.
_ Peça a outro.
A voz rouca de Sebastian saiu baixa, embora tenha falado com convicção.
Jullie, levantou uma das sobrancelhas como se não estivesse acreditando no que ouvira. Seus companheiros, Hazel podia jurar, fizeram o mesmo.
_ Eu acho que você não ouviu direito, garoto..-
_ Na verdade, eu ouvi sim. Só não quero faze-lo, então de novo, peça a outro.
O mesmo homem que se pronunciara antes  soltou um risinho alto o suficiente para trazer a atenção toda a si proprio. Chamou os guardas com a mão, e Sebastian pôde jurar, Jullie quase sorriu aliviada.
Quando os guardas sairam, Sebastian jogou-se no chão cansado. Hazel correu até seu encontro.
_ Porque não o fez?
_ Você o faria em meu lugar?
Perguntou cauteloso, enquanto estudava o rosto da menina.
_ Eu tenho meus motivos para querer faze-lo.  - Olhou Sebastian por um estante antes de desviar os olhos e pergunta-lhe novamente: - Porque não o fez?
_ Porque sou idiota de mais a ponto de não conseguir bater em uma mulher. - Ele foi sincero, mesmo desejando não ter sido - E porque não quero ser como eles.

_ Acredite, você é melhor!

3

Hazel estava apavorada. Acordara com sons altos de gritos e rugidos, isso só a levara a uma coisa: Mais uma morte provocada pelos famosos dragões da rainha.
As vezes, a loura pegava-se pensando o que se passava na cabeça da mulher, chamada por todos de “ Vossa Majestade”. Acreditava que era um verdadeiro labirinto macabro, cheio de interesse e ideias horríveis. Achava que a rainha era jovem de idade e idosa de espirito, uma tipica bruxa má sem sentimentos, que vivia feliz observando o sofrimento de seus iguais. Nojo. Hazel sentia nojo de sua majestade, um pecado que ela ainda irá pagar, sempre pagamos.
Encostado em um dos cantos da pequena sala, coberto pela escuridão, Sebastian estava sentado ao lado de Hazel. Estava mais quieto do que nunca, como sempre ficava ao ouvir a morte das pobres donzelas.
Hazel sabia muito pouco sobre ele e mesmo assim não tentara descobrir mais do que já sabia. A vida dele parecia perturbadora de mais, não que a dela mesma não fosse, mas era melhor não fazer parte disso, embora estava consciente: já fazia.
O que estavam vivendo agora provavelmente seria o ultimo capítulo de suas vidas. Talvez Sebastian tivesse sorte e conseguisse sair dali vivo, mas Hazel... Pobre Hazel, está destinada a uma morte tão sombria que até os piores seres teriam pena.
Quando os gritos pararam Sebastian soltou um suspiro. Hazel só não soube decifrar bem, seria por pena ou tristeza? Ambas as opções pareciam bem convincentes.
_ Acha que eles as torturam antes de as mandar para a morte?
A pergunta do garoto pegou Hazel de surpresa.
Se Sebastian pudesse ver a rosto dela nesse exato momento pediria desculpas pela pergunta inapropriada, afinal, estavam falando de como seria seu fim, mas ele não apareceu importar-se, ou talvez não tenha percebido.
_ Nunca imaginei como seria a minha morte.
Sebastian ficou em silêncio por um tempo. E foi um silêncio constrangedor, daqueles que demora muito tempo para acabar embora tenha durado pouco mais que um minuto e meio.
_ Desculpe.
Hazel não o respondeu. Em vez disso balançou a cabeça em sinal positivo, mesmo estando ciente de que ele não poderia enxerga-la por conta da escuridão.
A escuridão era tanta que Hazel quase não se lembrava como era sentir o Sol. Quase não lembrava como era dormir olhando as estrelas. Quase não lembrava de como andar na grama era tão bom. Mas mesmo que pudesse sair viva dessa, ela não esqueceria nunca como é ficar em meio as sombras, sendo maltratada e passando fome. Isso era impossível apagar da memoria embora fosse tudo o que ela mais queria.
_ Fora um erro meu pai não querer que eu me casasse. _ Deu uma risadinha sem graça e olhou na direção de Sebastian, mesmo que só pudesse ver a escuridão em sua frente _ Mas eles também foram tolos em me deixar prisioneira junto a um garoto. A maioria das prisioneiras o forçariam a fazer... Bem, aquilo com elas... Só para se livrar da morte.
_ O que você quer dizer com isso?
_ Quero dizer que eles são burros.
_ Ah... Sim... Com certeza!
Hazel riu da interpretação errada do menino, embora sim, tivesse algumas poucas pitadas de segundas intenções naquela frase.
A menina podia jurar que as bochechas do seu companheiro estavam tão vermelhas, quanto o sangue grudado em sua camisa. Ela tinha esse dom de deixar os garotos com vergonha, mas não fazia por mal... Na menor parte.
Então ouviram mais gritos e Sebastian entrou naquele estado novamente. Hazel fez uma tentativa falha de tapar os ouvidos para abafar o som, mas continuava ouvindo nitidamente.
_ Não queria acabar como elas.
_ Você não precisa.
_ Eu não posso escolher.
_ Você tem uma faca!
_ E o que é uma faca perto de guardas protegidos pela armadura?
_ É a chance de lutar pela vida, Hazel.
Hazel calou-se e se pegou pensando no que acabara de ouvir. Ele tinha razão. Ela vinha subestimando-se a um bom tempo, teria Sebastian um poder sobre as palavras? Ele era curto e tão bom com elas que Hazel quase acreditara que era capaz. Quase.
_ Não tenho força o suficiente.
_ Eu estou aqui, não estou?
_ Esta dizendo que esta disposto a lutar por minha liberdade?
_ Estou disposto a lutar por nossa liberdade.
Após um certo tempo sem nenhum dos dois se pronunciar, Hazel tomou a iniciativa:
_ Você é uma pessoa boa, Sebastian.

_ Acredite, não sou.

4

_ Hazel, a quanto tempo esta aqui?
Sebastian perguntou uma vez para a garota, de forma totalmente comum, como se estivessem falando sobre o que comeram no jantar da noite passada.
Hazel relutou um pouco antes de responder. Tentou fazer uma conta rapida em sua cabeça, mas não fazia ideia de quantas noites passara ali dentro.
_ Não sei...
_ Eu não sei você, mas ficar preso me dá vontade de morrer!
Hazel só não riu do garoto pois sabia como eram os três primeiros dias.
Eram tão sombrios quanto seu pior pesadelo, eram tão obscuros que se perder na floresta a noite seria melhor, eram tão solitários que alguns ficavam loucos antes mesmo de cumprir sua “missão”: Morrer.
_ Nós podíamos fugir, Hazel!
Hazel já pensara assim, no inicio também. Nos dias em que estava fraca de mais para abrir  os olhos pensava em mil e uma maneiras de fugir, mas elas sempre davam em um mesmo lugar: Sua dolorosa e fria morte.
Sebastian esperou por uma resposta, mas a mesma não veio. Hoje Hazel não estava com muita vontade de conversar, ele percebera, mas continuou tentando mesmo assim.
_ É sério, Hazel! Estou falando sério!
_ E como iremos fugir, hein? Hein?
A pergunta da menina pegara o menino de surpresa. Ele tinha pensado em fugir, mas de qual maneira?
_ Que tal usarmos a sua faca?
_ Pra quê? Matar a escrava que traz a comida?
Sebastian não conseguiria matar uma pessoa sem defesa só para se beneficiar, mesmo que isso o levasse a ter sua queria liberdade novamente.Sabia que a vida não seria como quando fora aprisionado: A moça que seu pai estava arranjando certamente já deve estar procurando outro garoto, e era melhor assim. Ele não teria amor para dar a sua companheira, e certamente ela sentiria receio do mesmo, afinal, a sua antiga prometida matou-se.
Sebastian era um garoto de má sorte.
_ As vezes acho que você não quer sair.
Formou-se outro silencio na sala. Aquilo já estava ficando rotineiro! Um dos dois sempre encontravam um jeito de fazer a conversa chegar a um ponto constrangedor. Mas só percebiam tarde de mais.
_ Sebastian, você sabe que os guardas monitoram a entrada e saída das escravas, não sabe?
_ Sim, eu sei.
_ Então digamos que  nós a deixemos presa! Como passaríamos pelos guardas?
_ Como eu disse antes, você tem uma faca.
_ Força brutal? Sério?
Sebastian podia jurar que sua parceira estava arqueando uma de suas sobrancelhas, como sempre fazia na escola quando usava seu tom irônico.  Mas assim como sabia disso, sabia que aquela ideia fora realmente estúpida, como venceria guardas com força brutal?
_ Tudo bem, podemos pensar em algo.
_ Acredite, Sebastian, não tem maneiras de fugir desse lugar.
Para Hazel o assunto acabaria ali, e pensou que para Sebastian também quando mesmo não disse nada por um bom tempo. Mas ele nunca desistia.
_ Lembra sobre o que conversamos ontem? Sobre lutar pela nossa liberdade?
_ Sim, eu lembro.

_ Pois bem, eu falei sério.

5

Sebastian acordou com Hazel pisando acidentalmente em seu braço. Agiu por impulso, por conta do susto, e a derrubou no chão como costumava fazer quando brincava de luta com Lucia, sua irmã. Mas dessa vez fora muito menos delicado e acabou a enforcando de verdade.
_ SOU EU SEBASTIAN, SOU EU!
A menina gritou um tanto desesperada de mais e Sebastian tratou de solta-la rapído. Se sentiu culpado por tê-la machucado, mas ela tinha lá sua culpa nisso, por isso não se desculpou.
_ Desde quando é tão forte assim?
Hazel perguntou em tom debochado, tentando provocar o rapaz, mas como sempre falhara nessa missão.
Sebastian já havia se adaptado ao jeito de sua parceira, e agora amiga, Hazel. A garota fazia piadinhas com qualquer coisa, mas havia dias que o ignorara por completo, outros que soltava frases de duplo sentido, que ele tentava não levar para o lado pessoal, mas acabava levando. Hoje era só mais um dia comum de piadinhas irritantes.
_ Desde quando  repara em meus músculos?
Agora foi a vez de Sebastian de provocar a menina. Ao que parecia ela não se intimidava, mas na verdade, dava graças a Deus que tudo aquilo era escuro para o garoto não ver o quão vermelho seu rosto se encontrava logo depois de uma piadinha como essa.
_ Desde quando  sobe em cima de garotas e as enforca?
Foram interrompidos pelo portão abrindo-se e de lá saindo uma das esguias escravas que levava seu almoço. Adentrara a sala e deixara o maldito sal. Tinha  o olhar de pena e não fazia esforço para disfarça-lo, mesmo sabendo que a vida que leva também não é muito favorável. Mas na mesma velocidade que entrou, saiu.
_ Esta com fome senhor musculoso?
_ Aha! Então você repara nos meus músculos.
_ Eu reparo em muitas coisas.
Hazel levantou-se em busca de água, e mais uma vez Sebastian se pegou pensando no sentido que aquela frase tinha. E vindo de Hazel, ela poderia ter muitos sentidos.
E foi quando, sem perceber, pegou-se pensando em uma forma eficaz de sair de sua jaula. Ele finalmente tinha encontrado.

_ Hazel, volte aqui, tenho um novo plano de fuga!

6

Quando Sebastian contou a Hazel o seu plano, a menina riu. Riu alto. Uma risada que talvez não fosse forçada, mas que não tinha motivo. Sebastian a olhou torto e completamente sério, não a via nitidamente mas notou que a garota balançava os ombros freneticamente. Parecia que ele tinha acabado de contar uma piada realmente engraçada e que ela estivesse em meio de um crise de risos. De fato estava. E quando rapou respirou fundo duas vezes.
_ Isso é sério?
A garota perguntou quando já tinha se contido. Sebastian achou que ela poderia ter pulado a parte da risada e passado logo para a pergunta. Isso o deixou sem graça. Pensou em responder, mas achou que se ficasse calado a garota tomaria aquilo por um sim. E acredite, aquilo funcionava mais que palavras.
_ Mas você é louco? Eu posso morrer e você também! Por falar em você, como diabus você vai sair daqui? Até agora ouvi falar apenas de mim.
_ Hazel não me subestime! _ Ele falou calmo, embora tenha sido grosso. Odiava falar sobre fugas com Hazel, ela rapidamente mudava a postura e virava uma garota reclamona sem fé. _ Ninguém vai morrer, acredite.
_ Ta, digamos que ninguém morra. Mas e ai? O que vai acontecer depois? Como eu vou fugir? Como você vai fugir? Ah, Sebastian, por favor! Isso não é uma historinha qualquer que você pode inventar para seus filhos. Isso é o que temos agora. RE-A-LI-DA-DE-!-. Você compreende a diferença?
_ Hazel eu sei que você esta insegura, e acredite, eu também estou! Mas é uma chance! Eu acredito que juntos podemos conseguir, por favor, me diga que também acredita.
_ Mas eu não. E...
A frase da garota morreu e Sebastian foi atingido por uma chama de inquietação. Quis que a menina terminasse a fala, mas ao que pareceu ela não a terminaria.
_ E...?!
_ Olha, esse seu plano é uma bosta! Você sabe disso não é?
_ Hazel...-
_ Eu ainda não terminei! _ A loira interrompeu o amigo, o mesmo calou-se imediatamente. Em parte porque estava curioso para saber o que a garota iria falar e em parte porque não tinha nada a dizer. O plano era definitivamente ruim, disso ele tinha consciência. _ Okay, eu posso fazer isso! Eu quero sair daqui e tem que ser de algum jeito. Mas Sebastian, eu juro, isso vai dar errado!
Sebastian, por ato totalmente involuntário, abraçou a menina. Era o primeiro contato corporal que tinham um com o outro. Hazel permaneceu quieta por um instante, mas o abraçou logo em seguida.E quando se soltaram não ficaram com vergonha. Pela primeira vez em que conversavam não teve um silencio ruim, e também os adolescentes estavam esperançosos.

Hazel e Sebastian enfim tinham construído um laço. Laço de amizade e confiaça. E aquela sensação era boa de mais para ambos.

7

Hazel estava nervosa. Faltava alguns poucos minutos para a escrava trazer o almoço e era ai que começaria seu plano.
A garota não queria deixar Sebastian para trás, mas ele insistira que assim seria melhor. Ela não brigou, embora tenha se arrependido disso depois.
Sebastian também estava acordado e estava mais calado que de costume. Hazel não sabia dizer se ele estava nervoso ou se estava apenas concentrado em sua própria parte do plano, que até então Hazel desconhecia.
_ Sebastian?_ Hazel o chamou, mas não teve resposta. Então, tentou um pouco mais alto:_ Sebastian?
_ Sim?
_ Você ainda não me disse como vai sair daqui.
Sebastian deu um sorrisinho torto, e se Hazel o tivesse visto teria corado.
Assim como ela fazia os garotos ficarem sem graça facilmente eles tinham o mesmo poder sobre ela. Era inevitável.
_ Esta preocupada comigo?
O tom do garoto era brincalhão, mas Hazel não era nem um pouco besta. Ela sabia que naquela frase tinha sim algumas poucas intenções. E gostava disso.
_ Digamos que sim.
Sebastian riu fraco.
_ Só siga o plano. Eu ficarei bem.
E quando o menino fechou a boca o portão se abriu e de lá de dentro saiu uma escrava. Bem mais baixa e miúda que a outra. O coração de Hazel bateu forte e Sebastian se levantou.
Apressou os passos, embora tentasse fazer silêncio e então socou a escrava em um dos pontos, que aprendera com seu pai, era de certeza que a pessoa desmaiaria.
O menino se surpreendeu quando a garota caiu. Quase não acreditara que ele tinha conseguido. E então, sentiu uma culpa imensa por estar aprisionando uma das escravas em seu lugar. Aquilo era horrível.  Mas continuou com o plano.
_ Vista-se com a roupa da escrava.
_ Vire-se.
Sebastian deixou que um sorriso torto mais uma vez tomasse sua face. É claro que ele não olharia para a garota, embora aquela opção parecesse tentadora de mais.
Hazel se vestiu rapidamente e tocou o ombro do garoto. Que olhou para trás no mesmo instante. Ele não via seu rosto com nitidez, mas podia jurar que ela tinha um de seus sorrisos tímidos estampando o rosto.
_ Então... Nos separamos aqui.
Hazel disse sem jeito. Não sabia exatamente o que aquilo era. Seria uma despedida? Um até logo? Ela estava em duvida. E estava com medo. E era engraçado que de todos aqueles medos ela temia justamente aquele que ambos não se encontrariam no final.
_ Você lembra de tudo, não lembra?
Sebastian  parecia preocupado, e de fato estava. Mas não consigo mesmo, ou com plano. Ele se preocupava com Hazel, ela era mais importante.
_ Sim, lembro.
_ Por favor, não faça nenhuma besteira.
_ Não vou.
E então Sebastian a beijou.
A sensação para Hazel era nova, mas era definitivamente boa. Então, o beijou também. Um pouco desajeitada, mas o beijou. E quando ele a envolveu em seus braços ela se sentiu segura. Um tipo de sentimento extremamente agradável, era como se nada de ruim pudesse lhe acontecer. E por um segundo pensou que o mundo era um lugar melhor. Até que o beijo acabou.
_ Você é mesmo indecifrável, Sebastian Grace.

E sem mais nenhum tipo de troca de palavras, eles deram inicio ao plano. Hazel mal podia esperar pela hora de ver Sebastian novamente. E se antes estava com medo, agora estava forte e decidida. 

8

Quando Hazel saiu Sebastian tomou outro rumo, tentando despistar os guardas. Pôde ouvir a voz de Hazel desculpando-se e mesmo com medo do porque continuou seguindo. Se tentasse alguma coisa seria bem pior.
   Apalpou o corredor com as mãos, em esperança de achar alguma saída por ali. Sem chance.  O corredor era grande e Sebastian não conhecia nada ali. E ainda tinha a culpa que o corroia por dentro, afinal, em troca de sua liberdade deixara outra pessoa presa. Que tipo de pessoa ele se tornara? Aquele que tanto desprezara?
   Andou todo o caminho destraido, até se dar conta que estava em outra ala das prisões. Estava perdido. Sebastian não tinha um senso de direção muito bom e também não conhecia o castelo. Xingou baixinho e quis ter escutado Hazel em quanto a tempo. Aquele plano era definitivamente o pior de todos.
   Quando ouviu passos procurou um lugar para se esconder. Tentativa falha, ele já sabia disso. E seu coração começou a bater mais forte a cada segundo, não tinha ideia do que seria, mas tinha certeza de que não era bom. Mas permaneceu quieto e por impulso prendeu a respiração, mas fora visto.
   E quando menos esperou estava caido no chão com alguém em cima de si. Tinha uma faca no pescoço, e os braços imobilizados. Aquilo de certa forma não o surpreenderia, assim como também tinha certeza que morreria ali mesmo.
   _ Quem é você?
   Era a voz daquela já conhecida guarda. Seu nome seria Jucy? Lucy? Ah não. Ele lembrara, ela se chamava Julie.
   Mas não a respondeu.  Manter-se calado poderia ser a pior resposta que ele teria, mas a preferiu mesmo assim. Não tinha nada a falar.
   _ Eu vou repetir novamente: Quem é você?
   Ela deu pausas longas em sua frase. Sebastian riu torto, ela o lembrava muito a imagem de sua falecida noiva. O gênio forte era o mesmo. E só por isso resolveu responder.
   _ Sebastian Grace. E você é Julie, a guarda.
   Ela furou seu pescoço com a faca. Sebastian gemeu. Fora um furo pequeno, daqueles que só de faz para causar dor, sem intenção de matar. Sebastian não sabia que ficava com medo ou aliviado.
   _ Como sabe quem sou eu?
   _ Não lembra de mim?
   _ Refresque minha memoria.
   Então Sebastian contou detalhadamente as duas vezes em que se encontraram. Usou ironia algumas vezes e em troca recebia mais cortes, mas não dava muita importância para isso.
   Mesmo depois que Sebastian contou para a mulher quem ele era e como o conhecia, ela ainda o manteve preso.
   _ E como conseguiu fugir?
   _ Eu tinha um plano.
   _ Tinha?
   _ É! Até você aparecer e estragar.
Julie riu fraco.
   _ Eu gosto de você, garoto. _ Disse e levantou-se. Sebastian não fez o mesmo, ele era ousado mas não era tão burro. Não iria levantar até que ela mandasse. _ Fique de pé.
   Então Sebastian levantou e ficou quieto. Julie o examinava de um jeito estranho, mas Sebastian não se sentiu exposto como sempre acontecia quando o olhavam. Talvez por não poder ver o rosto da mulher.
   _ Então, vai me prender de novo?
   _ Acha que eu devo te prender?
   _ É você quem joga as cartas, Julie.
   _ Juliana.
   _ É você quem joga as cartas, Juliana.
   Juliana estava certa de que prende-lo novamente era a coisa certa a se fazer, mas, mais do que tudo, odiava ficar em duvida com alguém e ela tinha uma divida com Sebastian. Estava na hora de pagar.
   _ Estou em divida com você e só por isso vou te mostrar a saída. A partir daí você se vira e se eu te ver novamente não penso duas vezes antes de te matar, estamos entendidos?
   _ Assim está ótimo.
   _ Certo, me siga. E lembre-se: Isso nunca aconteceu.
   Sebastian assentiu e seguiu a guarda. Ele não agradeceu mas ela sabia o quão grato ele era por tudo.

   Juliana era um anjo em sua vida. Um anjo mau. Mas ainda assim um anjo. 

9

Quando Hazel deixou Sebastian para trás sentiu um frio na barriga que não parava nunca.
Andou em um linha reta que parecia nunca acabar, embora não tenha levado mais que três minutos para chegar até o portão que dava entrada as malditas salas de prisões.
Hazel ia passar direto mas foi barrada por um guarda. Sua mente pensou que talvez ele a tenha descoberto e que a mataria, mas se acalmou quando aquela voz grossa soou autoritaria:
_ É bom não demorar tanto da próxima vez.
Hazel não evitou pensar em algo como “ Não haverá próxima vez”, mas ainda estava no papel de escrava. Então abaixou a cabeça de um jeito tímido e o respondeu em um fio de voz.
_ Eu sinto muito.
_Vamos, entre.
Os guardas tratam as escravas com menos desprezo com que tratam os prisioneiros. Hazel não sabia ao certo o porque disso tudo, mas não ficou pensando no assunto por muito tempo.
Em quanto seguia as outras escravas Hazel pensava em Sebastian e em como ele estaria agora. Ele teria achado uma outra saida? E qual plano ele tinha em mente? Ela ainda se arrependia em o ter deixado seguir sozinho.
A verdade era que Hazel não sabia nada sobre Sebastian. E o que sabia, todos do reino sabiam: Era um garoto estranho que não teve o casamento pois a noiva matou-se e perdeu a irmã para os dragões. Havia um boato que que Lucia não morrera pelos dragões, mas não passavam de boatos.
Quando passou por outro portão deu de cara com uma cozinha de peças muito caras. E a claridade quase lhe cegou, por esse motivo ficou um tempo parada, tempo o bastante para chamar a atenção de uma outra escrava.
Ela era menor que Hazel e tinha as bochechas manchadas por pintinhas laranjas, seus cabelos eram de um tom de vermelho do qual Hazel admirara e a pele era tão clara que lembrava a neve.
_ Estas com uma cara estranha. Aconteceu-te algo?
_ Ãhnnn... Não. Nada.
A menina riu abafado e a encarou.
_ Vamos, temos que deixar algumas espadas brilhando, como a vossa Rainha gosta.
A ruiva puxou a loura sem ao menos esperar por respostas, e Hazel voltou a prestar atenção no plano. Sebastian a tinha dito que a encontraria em frente ao castelo, para irem juntos rumo a liberdade. Mas será que ele já tinha conseguido chegar lá?
Hazel achava que sim.
Ou pelo menos torcia para que tivesse conseguido.
Então, depois de pegarem alguns materiais de limpeza foram para as escadas. E Hazel ficou encantada com o castelo. Ele era sombrio, como a toca de um vampiro, mas era definitivamente lindo e luxuoso. Ela poderia ficar admirando aquilo durante muito tempo, mas tinha uma fuga para fazer e estava bastante insegura quanto a isso, e deixava transparecer.
Quando chegaram as escadas o Sol mas uma vez fez Hazel fechar os olhos muitas vezes antes de se acostumar.
Hazel enfim via o Sol, e meu Deus! como aquela sensação era boa. Ela esperara por aquilo por tempo de mais. E quando uma brisa fria passou por si ela quase pulou de alegria, mas seu sorriso era grande o bastante.
A garota, que até então Hazel não sabia o nome a olhou estranho mas não disse nada.
_ Toma._ Ela disse entregando um balde para Hazel_ Tu deverás encher esse balde para mim. Podes me quebrar essa mãozinha?_ Hazel assentiu_ Ah, chamo-me Loren e venho de terras longinquas, meu antigo dono vendeu-me._ Hazel achou desnecessário tantas explicações, mas não falou ou fez nada_ Tu nunca esteve aqui antes, és uma das novatas estou certa?
Hazel sorriu de lado. Na verdade não era escrava, só estava se passando por uma. Mas não iria dizer a verdade para a ruivinha Loren, então simplesmente assentiu e seguiu rumo a um jardim que não sabia onde ficava. Quando se virou para perguntar a Loren a localização ela apontou para a direita sem nem esperar por uma pergunta. Hazel sorriu agradecida.
 O jardim era completo por rosas vermelhas e aquela rara flor das fadas, as aerodofitas: plantas que voam.
Deixe-me lhe explicar: As aerodofitas são chamadas pelas plantas que voam por conta do seu formato, que é idêntico as asas das fadas, mas de fato elas não voam. Porém são tão lindas que você pôde imagina-las batendo suas pétalas negras por todo o jardim.
 Hazel avistou um muro grande, quase impossível de se escalar. Mas eu disse quase.
Hazel tinha uma percepção muito boa e avistou uma escada no jardim, junto a uma árvore. Eram as escadas que os escravos usavam para aparar alguma árvore muito alta. Ela poderia usar a escada para subir até a árvore, e a árvore para chegar até o topo do muro. Seria esse o dia de sorte de Hazel? Então quando ia aproximar-se da escada, para examina-la ouviu uma voz masculina atrás de si.

_ Ei! Que vai fazer com isso?