Aprisionada
em uma grande sala vazia e fria, estava ela, sozinha, arquitetando um plano pra
sair daquele lugar onde a luz do Sol não batia. Poderia arquitetar o maior
plano de fuga de todos, mas aquilo não era um conto de fadas, e ela não era a
princesa. Nunca conseguiria sair de lá com uma faca, muito menos com um prego.
Limpou
o vestido sujo e estrupiado com as mãos calejadas, deu um passo sobre o chão
frio e arregalou os olhos quando ouviu vozes vindo em direção a sala onde vivia
aprisionada. Ficou com medo de ser maltratada mais uma vez, mas quando ouviu a
voz protestante de um garoto sentiu o coração apertar. Ninguém merecia viver
trancado sem a luz do Sol.
Mas
não entendia o que um garoto fazia ali.
Correu
em direção ao colchão fino, sujo e fedido que dormia todas as noites tentando
aquecer-se do frio, uma tarefa impossível: Naquele reino o frio era cortante
como o gelo. Deitou-se fingindo dormir, se continuasse parada no meio da sala
seria bem pior. Foi então que as vozes começaram á ficar claras: " Não
irei ficar aqui por muito tempo!" Risadas ecoaram ainda mais alto que a
fala do menino " Idiotas!" " Cale-se, plebeu." Estranhamente
era a voz de uma mulher. Então o barulho do chicote contra a pele ecoou, em
seguida, menos de um segundo depois, um grito de dor.
O
barulho da porta se abrindo. Logo em seguida as grades também se abriram. A
loira encolheu-se mais ainda, também prendeu a respiração. O menino foi jogado
no chão duro e frio com força, logo depois mais uma chicoteada e mais um grito
de dor, desta vez ainda mais forte. A menina fechou os olhos com força,
tentando não lembrar como aquilo doía.
Os
guardas saíram rindo, em seguida trancaram a grade novamente.
O
menino permaneceu deitado da mesma forma que tinha caído. Hazel virou-se e o
observou, mesmo no escuro era fácil notar que a blusa além rasgada estava
manchada pelo sangue. Pensou em ajudá-lo, mas, e se ele tivesse alguma mulher?
Todos sabiam que mulheres descompromissadas não deviam conversar com homens
comprometidos. Mas e se ele não tivesse uma esposa e ela não o ajudasse por
bobagem? Resolveu, por fim, ajudá-lo.
Levantou-se
com cuidado, com medo de se aproximar; não que tivesse medo dele, mas nunca
tinha ficado presa com nenhum homem antes. Nem mesmo tinha ficado sozinha com
os próprios irmãos. Aquilo era no minimo, estranho.
Quando
chegou até ele, o mesmo á olhou, e ela pode ver que uma das chicotadas foi no
rosto. Uma parte da boca estava sangrando, bem perto do olho já se mostrava o
inchaço e a sobrancelha sangrenta, a
bochecha que antes era rosa agora estava vermelha devido ao sangue do mesmo.
Teve sorte, já vira situações piores, como por exemplo Susan, sua ex-colega de
prisão: Apanhou tanto que acabou morrendo minutos depois. Mas uma coisa era
estranha: Guardas não devem bater nos rostos dos prisioneiros, isto é uma regra
desde que Alicia assumiu o trono de seu pai. Se tem uma coisa que aquela mulher
preserva era a beleza.
A
menina deu as costas ao garoto e voltou para de junto do colchão, onde pegou um
balde cheio de água e o resto do Sal que recebeu no almoço.
O
almoço não era grande coisa, na verdade, Hazel nunca o comia. Era o sal, a água
e nada mais. As pessoas que o comeu durante uma semana tiveram problemas sérios
e acabaram, em seguida, morrendo. As que não comiam eram mandadas para os
dragões antes de morrerem de fome ou cometiam canibalismo com seus colegas de
prisão.
Voltou
até o mesmo que se manteve quieto, nem um movimento ele tentara. A moça pegou a
faca que tinha achado debaixo do colchão, entre os seus seios. Por conta do
vestido sem decote dava pra esconder muito bem. Com a faca arrancou uma parte
pequena do vestido e encarou o menino.
_
Faria um esforço para sentar-se?
Com
a ajuda de Hazel, Sebastian conseguiu sentar-se, ainda assim tinha dificuldade
pra manter a posição. Não era pra menos.
Mergulhou
o pequeno pedaço de pano no balde cheio de água e o passou de leve pela boca
inchada do menino. Sabia que aquilo estava doendo, não só pela expressão dele,
mas por já ter passado por isso. Sabia, também, que aquilo iria ficar ainda
pior com o passar dos dias. Talvez levasse a morte, e apesar de serem estranhos
um para o outro, rezava pra que ele ficasse bem logo.
Encarando
o rosto do menino, Hazel o reconheceu da escola. Eles eram da mesma classe,
embora nunca tenham trocado muitas palavras. Ficou aliviada por saber que ele
não era compromissado: a noiva se matou antes do casamento. É uma historia triste,
pois eles eram bem próximos um do outro. Ninguém sabe o motivo dela ter se
matado, e se souberam, não falaram á ninguém.
Tudo que Hazel sabia é que á acharam numa arvore com uma corda amarrada
em volta do pescoço, era a corda que á sustentava. Os pés estavam á poucos
centímetros do chão e a face rocha. No enterro os pais não choraram, e
Sebastian não apareceu; muitos dizem que ele sentou em baixo da árvore que há
acharam e ficou lá por um dia completo. Hazel nunca teve vontade de saber mais
do que isso, á historia á assustava.
Depois
de ter limpado todo o sangue de Sebastian e passado sal nos ferimentos, Hazel o
ajudou á ir até o colchão. Claro que dormir num chão duro e frio é ruim, mas o
rapaz estava em condições piores que a sua, então, cedeu o lugar.
Sebastian
não demorou á dormir. E pro azar de Hazel, nem os guardas á aparecer. Não sabia
o motivo de eles estarem ali, mas quando os guardas aparecem nunca é por um
motivo bom.