8.2.17

13

Quando chegaram ao final do penhasco¹ Henry se despediu de Hazel. Depois do episodio anterior eles não haviam trocado mais nenhuma palavra.
Hazel observou a silhueta do homem desde quando ele disse adeus e virou as costas, voltando. De certa forma Hazel não queria que ele fosse embora, não agora, ela tinha aprendido a gostar de Henry em apenas um dia. E depois de tudo, achou que aquele adeus fora seco de mais. Então o gritou.
A voz a menina saiu aguda, ainda pior do que o normal. Henry virou-se, e a encarou de longe. O sol já tinha ido embora e tudo o que ambos conseguiam ver era uma silhueta escura. Ela pensou em o que falar agora que tinha conseguido sua atenção.
_ Nos vemos por ai?
Na verdade Hazel queria agradecer, mas não o fez. Se arrependeu depois, é claro, mas não o fez.
_ A gente se esbarra._ Ele se virou novamente. Ficou parado por um momento, até Hazel ver mais duas silhuetas. Uma, ela tinha certeza, pertencia a Sebastian. Henry a olhou._ Ele é o sortudo?_ E apontou para Sebastian.
 Ele usara a palavra sortudo, e Hazel achou que ele estava enganado. Era ela a sortuda por ter Sebastian em sua vida, era ela quem deveria agradecer, não ele. Mas não fez nada além de correr na direção de Sebastian.
Eles se abraçaram. Um abraço forte. E depois se beijaram. As sensações foram as mesmas que da primeira vez, e esse detalhe não fez com que o beijo tivesse algo a menos. Se separaram alguns minutos depois, e perceberam os olhares sobre si, e como se não fosse nada, se beijaram outra vez. Hazel não gostava de amar. Mas gostava de amar Sebastian.
E quando por fim se separaram olharam para o outro casal. Eles estavam conversando sobre alguma coisa. Uma coisa da qual Sebastian e Hazel não escutaram. Estavam entretidos de mais um do no outro.
_ Eu senti sua falta._ Ele disse. A voz rouca e envergonhada._ Sabe, muito.
_ Não chegou nem dois dias, Sebastian._ Ela jurou ver desapontamento no rosto dele. Talvez ele estivesse esperando um “ eu também”, mas Hazel não era uma boa romântica.
_ Foi o suficiente.
_ Eu te-
Hazel não terminou a frase porque foram interrompidos por alguns passos rápidos, fortes e próximos. Olharam em direção as arvores que ficavam afastadas do penhasco, e ela sabia que eram os guardas. A pergunta era: Como?
_ Droga, garoto! São eles!
Hazel demorou um momento para perceber que a mulher falava com Sebastian. E ficou com ciumes, embora não tivesse demonstrado.
Sebastian foi até a mulher, Hazel logo atrás. Só então o menino reparou a presença do outro. Juliana reparou, e em seguida passou uma adaga para Henry.
_ Esse é Henry, garoto!
E então os guardas chegaram. E quando chegaram não perderam tempo. Eram dois, os mesmos que Sebastian nocauteara mais cedo, e pela raiva dos mesmos, ele tinha certeza que Adam tinha morrido.
Um dos guardas avançou em Sebastian. Hazel gritou. Henry se pôs na frente do menino e, com a adaga, rasgou a bochecha do guarda. Esse também tentou algo contra Henry, e é claro, conseguiu.
Com  chicote ele bateu em Henry. Bateu com força, e o loiro voou longe. Ele virou-se para Sebastian novamente, o garoto estava pronto para nocauteá-lo quando viu Juliana atrás do mesmo, e em um movimento rápido ela prendeu o chicote no pescoço do guarda. Ele tossiu, engasgado. Ela não soltou até ter certeza que ele estava morto.
Henry já estava de pé e estava travando uma luta nada justa com o outro guarda. Estava perdendo, e antes de Juliana o ajudar gritou para Sebastian:
_ Acho melhor você correr! Vá!
E como se fossem idiotas, eles correram não para a floresta, mas para o fim do penhasco. Perceberam isso quando ficaram sem saída.
Então observaram o mar lá em baixo. As ondas traiçoeiras, e as pedras pontudas. Era como se nada tivesse ao favor dos dois. E tiveram essa certeza quando olharam para trás e viram um Henry caído no chão, imóvel.
Hazel arregalou os olhos, a boca aberta. Henry sangrava pelo peito, fora atingido diretamente no coração, pela própria adaga que segurava. A blusa manchada em um vermelho brilhante, os olhos estavam abertos embora vidrados. Era difícil ver Henry daquela forma, e ela não pôde deixar de se sentir culpada. Ele estava lutando para protegê-la, era como se ela mesma tivesse provocado a morte do rapaz.
Juliana travava uma batalha ainda nada justa com o outro guarda. Ambos usavam o chicote, mas o homem era certamente muito mais habilidoso. Tinham movimentos rápidos, e ele nocauteou Juliana com facilidade. Embora pudesse mata-la, ele não o fez, apenas chutou sua cabeça com força o bastante para que ela desmaiasse, e então pegou seu chicote.
Ele correu em direção a Sebastian e Hazel.
Sebastian estava desarmado e mesmo assim se pôs na frente de Hazel. Não demorou muito para receber um murro na cara, ele ficou zonzo mas não caiu.
_ Sabe o que aconteceu ao Adam?_ O guarda gritou. Hazel não parecia ser Hazel, estava apavorada e seu rosto estampava medo._ A mesma coisa que aconteceu com aquele loirinho, e também a mesma coisa que vai acontecer com ela._ Ele apontou para Hazel, que prendeu a respiração atrás de Sebastian._ Porque de que adianta tirar sua vida se te pouparei do sofrimento? Quero mais que você sofra, de novo._ Ele riu tão alto que os ouvidos de Sebatian transmitiram um som estranho_ É, eu sei sobre a sua historia, Grace. Juliana, uma vez, me falou sobre, quando a poupou de uma bela cicatriz na cara, como a sua._ E então deu outro murro em Sebastian. O garoto começou a sangrar._ Perdeu a irmã para os dragões, não foi? Como era mesmo o nome dela? Tanto faz, eu ainda posso lembrar de como ela sofreu em sua morte.
Sebastian fechou os punhos, estava morrendo de ódio daquele guarda. E estava determinado a acabar com ele, só esperava por uma distração e ai ele atacaria. E então o mataria com o próprio chicote, da mesma forma que Juliana tinha feito com seu companheiro.
_ Mas o que muitos não sabem: Ela não morreu pelos dragões._ Ele gargalhou_ Adam, uh, ele a fodeu. E depois o Michael, e depois eu. Ela gritou por socorro, gritou alto.
 Sebastian tentou soca-lo. E pela primeira vez se sentia bem em ter matado alguém. E se sentiria ainda melhor por matar duas pessoas. Mas o guarda se defendeu, e empurrou Sebastian para o mar lá em baixo. Ele não caiu, mas Hazel, que estava atrás do mesmo, sim.
Sebastian deitou nas pedras frias do penhasco e olhou para baixo. Podia ouvir Hazel gritando por socorro, e depois a viu, não muito abaixo de si, se segurando. Dando o melhor de si para não cair.
Então Sebastian sentiu a dor de uma chicoteada em suas costas. Ele não se importou, tudo o que queria era salvar sua Hazel. E então veio outra, e depois outra, e era impossível simplesmente esquecer da dor, e mesmo assim ele se esticou e gritou para Hazel, um tanto otimista de mais:
_ Está tudo bem, Haz! Eu estou aqui, eu vou te ajudar, certo? Pegue a minha mão.
Outra chicotada. Desta vez ele gritou. Um grito de dor, de raiva. E então se esticou ainda mais, e pegou a mão da garota.
Sebastian tinha certeza que não aguentaria, e ainda assim continuou tentando. Porque ele a amava, porque ela era tudo o que ele tinha.
Outra chicotada. Ele estava quase desmaiando. Mais uma, e outra.
Mas em nenhum momento Sebastian desistiu, e quem persiste, consegue. Ele tinha conseguido trazer sua amada para cima, mas quando queria abraça-la percebeu que não tinha forças para tal. E percebeu o grito fino de Hazel quando sentiu um pé em seu rosto. E depois escuridão.
Hazel estava em choque. E depois que tinha gritado ficou muda, os olhos perdidos. Estava tão despeça que não percebeu quando Juliana levantou e empurrou o guarda penhasco a baixo. Ele caiu gritando, e as duas mulheres puderam ouvir seu impacto no chão depois de alguns segundos.
 Juliana abraçou Hazel de lado e a puxou rumo a floresta. Não trocaram uma palavra sequer, ambas tinham perdido alguém muito importante².
Mas então ela recebeu seu preço. Descobriu que a liberdade, as vezes, só te prende mais. Ela estava presa as lembranças.

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