8.2.17

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Aprisionada em uma grande sala vazia e fria, estava ela, sozinha, arquitetando um plano pra sair daquele lugar onde a luz do Sol não batia. Poderia arquitetar o maior plano de fuga de todos, mas aquilo não era um conto de fadas, e ela não era a princesa. Nunca conseguiria sair de lá com uma faca, muito menos com um prego.
Limpou o vestido sujo e estrupiado com as mãos calejadas, deu um passo sobre o chão frio e arregalou os olhos quando ouviu vozes vindo em direção a sala onde vivia aprisionada. Ficou com medo de ser maltratada mais uma vez, mas quando ouviu a voz protestante de um garoto sentiu o coração apertar. Ninguém merecia viver trancado sem a luz do Sol.
Mas não entendia o que um garoto fazia ali.
Correu em direção ao colchão fino, sujo e fedido que dormia todas as noites tentando aquecer-se do frio, uma tarefa impossível: Naquele reino o frio era cortante como o gelo. Deitou-se fingindo dormir, se continuasse parada no meio da sala seria bem pior. Foi então que as vozes começaram á ficar claras: " Não irei ficar aqui por muito tempo!" Risadas ecoaram ainda mais alto que a fala do menino " Idiotas!" " Cale-se, plebeu." Estranhamente era a voz de uma mulher. Então o barulho do chicote contra a pele ecoou, em seguida, menos de um segundo depois, um grito de dor.
O barulho da porta se abrindo. Logo em seguida as grades também se abriram. A loira encolheu-se mais ainda, também prendeu a respiração. O menino foi jogado no chão duro e frio com força, logo depois mais uma chicoteada e mais um grito de dor, desta vez ainda mais forte. A menina fechou os olhos com força, tentando não lembrar como aquilo doía.
Os guardas saíram rindo, em seguida trancaram a grade novamente.
O menino permaneceu deitado da mesma forma que tinha caído. Hazel virou-se e o observou, mesmo no escuro era fácil notar que a blusa além rasgada estava manchada pelo sangue. Pensou em ajudá-lo, mas, e se ele tivesse alguma mulher? Todos sabiam que mulheres descompromissadas não deviam conversar com homens comprometidos. Mas e se ele não tivesse uma esposa e ela não o ajudasse por bobagem? Resolveu, por fim, ajudá-lo.
Levantou-se com cuidado, com medo de se aproximar; não que tivesse medo dele, mas nunca tinha ficado presa com nenhum homem antes. Nem mesmo tinha ficado sozinha com os próprios irmãos. Aquilo era no minimo, estranho.
Quando chegou até ele, o mesmo á olhou, e ela pode ver que uma das chicotadas foi no rosto. Uma parte da boca estava sangrando, bem perto do olho já se mostrava o inchaço  e a sobrancelha sangrenta, a bochecha que antes era rosa agora estava vermelha devido ao sangue do mesmo. Teve sorte, já vira situações piores, como por exemplo Susan, sua ex-colega de prisão: Apanhou tanto que acabou morrendo minutos depois. Mas uma coisa era estranha: Guardas não devem bater nos rostos dos prisioneiros, isto é uma regra desde que Alicia assumiu o trono de seu pai. Se tem uma coisa que aquela mulher preserva era a beleza.
A menina deu as costas ao garoto e voltou para de junto do colchão, onde pegou um balde cheio de água e o resto do Sal que recebeu no almoço.
O almoço não era grande coisa, na verdade, Hazel nunca o comia. Era o sal, a água e nada mais. As pessoas que o comeu durante uma semana tiveram problemas sérios e acabaram, em seguida, morrendo. As que não comiam eram mandadas para os dragões antes de morrerem de fome ou cometiam canibalismo com seus colegas de prisão.
Voltou até o mesmo que se manteve quieto, nem um movimento ele tentara. A moça pegou a faca que tinha achado debaixo do colchão, entre os seus seios. Por conta do vestido sem decote dava pra esconder muito bem. Com a faca arrancou uma parte pequena do vestido e encarou o menino.
_ Faria um esforço para sentar-se?
Com a ajuda de Hazel, Sebastian conseguiu sentar-se, ainda assim tinha dificuldade pra manter a posição. Não era pra menos.
Mergulhou o pequeno pedaço de pano no balde cheio de água e o passou de leve pela boca inchada do menino. Sabia que aquilo estava doendo, não só pela expressão dele, mas por já ter passado por isso. Sabia, também, que aquilo iria ficar ainda pior com o passar dos dias. Talvez levasse a morte, e apesar de serem estranhos um para o outro, rezava pra que ele ficasse bem logo.
Encarando o rosto do menino, Hazel o reconheceu da escola. Eles eram da mesma classe, embora nunca tenham trocado muitas palavras. Ficou aliviada por saber que ele não era compromissado: a noiva se matou antes do casamento. É uma historia triste, pois eles eram bem próximos um do outro. Ninguém sabe o motivo dela ter se matado, e se souberam, não falaram á ninguém.  Tudo que Hazel sabia é que á acharam numa arvore com uma corda amarrada em volta do pescoço, era a corda que á sustentava. Os pés estavam á poucos centímetros do chão e a face rocha. No enterro os pais não choraram, e Sebastian não apareceu; muitos dizem que ele sentou em baixo da árvore que há acharam e ficou lá por um dia completo. Hazel nunca teve vontade de saber mais do que isso, á historia á assustava.
Depois de ter limpado todo o sangue de Sebastian e passado sal nos ferimentos, Hazel o ajudou á ir até o colchão. Claro que dormir num chão duro e frio é ruim, mas o rapaz estava em condições piores que a sua, então, cedeu o lugar.
Sebastian não demorou á dormir. E pro azar de Hazel, nem os guardas á aparecer. Não sabia o motivo de eles estarem ali, mas quando os guardas aparecem nunca é por um motivo bom. 

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